Highlights sobre Neoplasia de Cabeça e Pescoço na ASTRO 2018

Por: Felipe Teles de Arruda (Radiooncologista do Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto) e Diego Chaves Rezende Morais (Radiooncologista do Grupo Oncoclínicas Recife)

 

A conferência anual da Sociedade Americana de Radioterapia (ASTRO) é um evento internacional de referência em radioterapia e que neste ano celebra a sua 60 ª edição realizada de 21 a 24 de outubro no Centro de Convenções Henry B. Gonzalez em San Antonio no Texas.

Houve grandes novidades sobre as neoplasias de cabeça e pescoço e uma das mais aguardadas foi o trabalho do NRG-RTOG 1016 que demonstrou que a quimioterapia com cisplatina, combinada com a radioterapia, produz os melhores resultados e deve ser considerada o tratamento padrão nos pacientes com tumores de orofaringe HPV positivo.

Este estudo de fase III, de não-inferioridade, incluiu 805 pacientes com tumores de orofaringe locoregionalmente avançados e HPV positivos (p16 positivo) os quais foram tratados com dois ciclos de quimioterapia com cisplatina a cada três semanas (dose total 200mg/m2)  mais radioterapia (IMRT) ou cetuximabe semanal com o mesmo esquema radioterápico. Os resultados foram apresentados precocemente após análise interina dos dados demonstrar sobrevida global e sobrevida livre de progressão inferiores com o uso do cetuximabe. A estimativa de falha loco-regional em 5 anos e a taxa de metástases à distância também se tornaram consideravelmente menores com o uso da cisplatina. A sobrevida em 5 anos foi de 84,6% no grupo da cisplatina versus 77,9% no grupo do cetuximabe. Portanto a não-inferioridade de cetuximabe em relação à cisplatina não pode ser demonstrada. Esses resultados confirmam a radioterapia associada à cisplatina concomitante como tratamento padrão nestes pacientes. Os melhores resultados com cisplatina foram obtidos às custas de pequeno aumento na incidência dos efeitos colaterais (82% versus 77%), embora sem significância estatística. As medidas de qualidade de vida foram coletadas, mas ainda não foram relatadas.

Outro estudo apresentado foi: “Circulação plasmática do DNA HPV tumoral como vigilância da recorrência do câncer de orofaringe associado ao HPV” apresentando por Bhisham Chera, MD — University of North Carolina School of Medicine. Neste estudo prospectivo 89 pacientes com tumores relacionados ao HPV (p16 positivo) tratados com radioquimioterapia foram submetidos à análise do DNA HPV circulante no sangue (ctHPVDNA). 73 dos 89 pacientes mantiveram ctHPVDNA indetectável e nenhum deles apresentou recidiva tumoral. Dos 16 pacientes com ctHPVDNA detectável, 08 efetivamente foram diagnosticados com recidiva tumoral. Tais resultados indicam que o método possui sensibilidade de 100%, especificidade de 90%, valor preditivo negativo de 100% e valor preditivo positivo de 50%. Estudos futuros devem ser feitos para avaliar se o teste pode melhorar a detecção precoce da recorrência do câncer e, ao mesmo tempo, reduzir os custos direcionando e otimizando a vigilância radiográfica.

Neste ano também ocorreram aulas relacionadas a contornos em radioterapia com sessão especial para cabeça e pescoço que incluiu segmentação e definição de volumes alvo em circunstâncias clínicas comuns. Foram discutidas doses de radiação recomendadas para vários sítios anatômicos e cenários clínicos além do contorno de volumes-alvo e órgãos críticos em risco. A ASTRO 2018 termina e deixa a sensação de quanto podemos evoluir em nossas pesquisas em radioterapia e especialmente nas condutas que envolvem as neoplasias de cabeça e pescoço.

O Câncer de Cabeça e Pescoço no GLOBOCAN 2018

Por Gabriela Freitas Chaves, oncologista do  Hospital Integrado do Câncer Materdei 

GLOBOCAN é um projeto do IARC (International Agency for Research on Cancer) que avalia estimativas de incidência e mortalidade por câncer, através de dados de cada país/região, utilizando métodos estatísticos variados e gerando dados de alta qualidade.

Em setembro de 2018 foram liberados os dados do novo GLOBOCAN, englobando 36 sítios de câncer, com dados de 185 países.

Como dados gerais temos:
Há um crescimento contínuo e rápido na incidência e mortalidade por câncer em todo o mundo;
Estimam-se, para 2018, 18.1 milhões de novos casos de câncer (17 milhões, excluindo pele não-melanoma) e 9.6 milhões de mortes relacionadas ao câncer;
O risco cumulativo de incidência indica que 1 em cada 8 homens e 1 em cada 10 mulheres desenvolverão a doença ao longo da vida.

 O QUE O NOVO GLOBOCAN TRAZ DE NOVO SOBRE O CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO?

 Os subsítios da cabeça e pescoço avaliados no GLOBOCAN foram:

 -Lábio e cavidade oral (C00-C06)
– Glândula salivar (C07-C08)
– Orofaringe (C09-C10)
– Nasofaringe (C11)
– Hipofaringe (C12-C13)
– Laringe (C32)
– Tireóide (C73)

Quando se somam todos os subsítios, estes tumores ocupam o TERCEIRO lugar em incidência, com 1.454.892 novos casos em 2018, ficando atrás somente dos tumores de pulmão (2.093.876) e mama (2.088.849) e à frente do câncer de próstata (1.276.106) .
Quando analisamos os sexos separadamente, os tumores de cabeça e pescoço são a quarta causa mais comum de câncer em homens (796.946 casos), ficando atrás de pulmão, próstata e colorretal. Nas mulheres também são a quarta causa mais comum (657.966 casos), atrás de mama, colorretal e pulmão, sendo os tumores de tireoide o mais frequentes nesta população (436.344 casos).
A incidência pode variar de acordo com a região do mundo. Nos países em desenvolvimento, em homens, o câncer de lábio e cavidade oral por si só é o terceiro em incidência, em parte pela alta taxa da doença na Índia, que corresponde a 36% da população de países com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH).
Entender as estatísticas mundiais sobre câncer, no nosso caso o câncer de cabeça e pescoço, é essencial para propormos medidas de prevenção e diagnóstico precoce. Medidas como políticas anti-tabagismo, vacinação contra o HPV e melhora das condições da saúde oral e dieta da população terão um impacto significativo na incidência e mortalidade desta doença.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências:

Bray F, Ferlay J, Soerjomataram I et al. Global Cancer Statistics 2018: GLOBOCAN Estimates of Incidence and Mortality Worldwide for 36 Cancers in 185 Countries. CA: A Cancer Journal for Clinicians 2018;0: 1-31.

Antonia S, Soerjomatarama I, Møllerb B et al. An assessment of GLOBOCAN methods for deriving national estimates of cancer incidence. Bulletin of the World Health Organization 2016;94:174-184.

Pesquisa brasileira publicada na Nature Communications abre caminhos para marcadores prognósticos robustos no câncer de boca

Por Alan Roger, estomatologista, UNICAMP 

 

Pesquisa coordenada pelo Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), com participação da FOP-UNICAMP e do ICESP-FMUSP, indica marcadores de prognóstico que servem de parâmetro para avaliar a gravidade do câncer oral. A descoberta abre caminho para ajudar na tomada de decisão clínica sobre tratamentos mais apropriados.

O carcinoma espinocelular, tipo mais comum de câncer bucal, é o tumor maligno mais frequente da região da cabeça e pescoço. A cada ano são diagnosticados cerca de 300 mil novos casos em todo o mundo, com taxa de mortalidade de 145 mil pacientes no mesmo período.  O tratamento dessa neoplasia é desafiador porque as respostas aos tratamentos convencionais apresentam uma variação muito grande de resultados. Para se ter uma ideia, as taxas de recorrência dos tumores podem variar entre 18 e 76%.

Estudos coordenados pelo CNPEM em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Estomatopatologia da Faculdade de Odontologia de Piracicaba e os Serviços de Odontologia Oncológica e de Oncologia Clínica do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) –entre outras instituições de pesquisa do Brasil e do exterior– com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), contribuíram para identificar, quantificar e compreender a relação entre proteínas, progressão destes tumores e tratamento.

O mais recente resultado obtido por essa colaboração acadêmica, tema de artigo publicado no prestigioso periódico Nature Communications, foi a identificação de marcadores de prognóstico robustos a partir do mapeamento de proteínas observadas em 120 amostras de tecidos tumorais da língua de 20 pacientes que foram acompanhados por 5 anos. Os dados foram confirmados em aproximadamente 800 casos de tecidos e em 120 amostras de saliva de 40 pacientes oncológicos. A publicação destaca como a combinação de fases de descoberta e verificação em diferentes tipos de amostras resultou em maior confiabilidade na validação dos alvos, em outras palavras, a correlação entre os níveis da proteína e a gravidade da doença.

Link para acessar o artigo completo: https://www.nature.com/articles/s41467-018-05696-2

De acordo com a coordenadora do estudo, Dra. Adriana Paes Leme, que trabalha no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio) e atua como Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Estomatopatologia da FOP-UNICAMP, entre os objetivos dos estudos futuros se pretende compreender os mecanismos de ação das proteínas distribuídas pelas diferentes áreas do tumor. “O que buscamos saber também é se a presença dessas proteínas é a causa ou o resultado de processos”.

A identificação de marcadores ou assinaturas moleculares é fundamental para que oncologistas consigam superar as limitações dos exames clínicos e tenham parâmetros seguros para estabelecer estratégias de tratamento mais personalizadas e eficientes. A equipe de pesquisadores, que já havia publicado uma série de resultados anteriores em periódicos científicos internacionais com seleta política editorial, continua colaborando nesse campo do conhecimento e pretende, nos próximos anos, desenvolver e validar um biosensor com potencial para identificar as assinaturas moleculares descritas pelos pesquisadores em questão, contribuindo para o diagnóstico precoce e a melhor previsibilidade do prognóstico do câncer de boca.

Dentre os diversos pesquisadores de centros do país e do exterior que participaram do estudo em questão e que atuaram como co-autores da publicação em questão estão egressos do Programa de Pós-Graduação em Estomatopatologia (Carolina Carneiro Soares Macedo, César Rivera, Iris Sawasaki-Calone, Ana Carolina Prado Ribeiro, Thaís Bianca Brandão, Wilfredo Alejandro González-Arriagada, Priscila Campioni Rodrigues, Sabrina Daniela da Silva) e os Professores do Programa de Pós-Graduação em Estomatopatologia Adriana Franco Paes Leme, Alan Roger dos Santos Silva, Edgard Graner, Ricardo Della Coletta, Tuula Salo e Márcio Ajudarte Lopes.

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