FATORES PROGNÓSTICOS EM PACIENTES COM CARCINOMA DE CÉLULAS ESCAMOSAS DE PELE NA REGIÃO DE CABEÇA E PESCOÇO COM DISSEMINAÇÃO LINFONODAL

 

 

 

 

 

Por Diego Rezende – Radioncologista da Oncoclínicas de Recife e Membro do GBCP

Os cânceres de pele são os tumores mais frequentes em todo o mundo. Entre eles, o segundo tipo mais comum é o carcinoma cutâneo de células escamosas (CEC cutâneo), o qual surge predominantemente na região de cabeça e pescoço, em pessoas de pele clara e com forte associação à exposição solar1. A grande maioria dos CEC cutâneos de cabeça e pescoço são localizados, porém aproximadamente 5% dos casos apresentam disseminação para os linfonodos regionais, com piores resultados em termos de sobrevida e, consequentemente, requerendo tratamentos mais agressivos2. Recente publicação da JAMA Otolaryngology – Head & Neck Surgery realizou revisão sistemática da literatura e metaanálise buscando identificar os principais fatores prognósticos em pacientes com CEC cutâneo com metástases para linfonodos na região de cabeça e pescoço3.

Após pesquisa nas principais bases de dados da literatura, os autores identificaram 21 estudos que preenchiam os critérios de inclusão, sendo 20 estudos observacionais e apenas 01 estudo randomizado. A análise final incluiu 3.534 pacientes e objetivou identificar os principais fatores de risco associados à piora da sobrevida global, sobrevida câncer-específica e controle locorregional.

Os fatores identificados como preditores de pior sobrevida global foram:

  • presença de imunossupressão, a qual também esteve associada a pior sobrevida câncer-específica. Este critério, inclusive, passou a ser considerado no estadiamento mais recente (8ª edição) do AJCC Cancer Staging Manual como fator prognóstico essencial para a grande maioria dos tumores cutâneos não-melanoma4;
  • presença de extensão linfonodal extracapsular mais uma vez corroborando as mudanças na última edição do AJCC Cancer Staging Manual que reclassificaram esses pacientes para N3b (classificação linfonodal de pior prognóstico no TNM)4;
  • razão do número de linfonodos comprometidos pelo número de linfonodos ressecados elevada, embora os autores reconheçam a significativa heterogeneidade entre os estudos com resultados conflitantes na literatura;
  • idade avançada, embora as implicações clínicas não sejam tão significativas e a heterogeneidade entre os estudos tenha sido bastante elevada.

Por fim, os autores enfatizam que o uso da radioterapia adjuvante à cirurgia resultou em melhor sobrevida global e melhor sobrevida câncer-específica. Os pacientes que não foram submetidos à adjuvância com radioterapia apresentaram aproximadamente metade da sobrevida global e sobrevida câncer-específica dos pacientes irradiados. Vale destacar que, embora o uso da radioterapia adjuvante seja recomendado pelos principais guidelines para pacientes com CEC cutâneo de cabeça e pescoço com metástases linfonodais entre eles a última versão do NCCN5, esses resultados podem ser influenciados por possíveis vieses na seleção dos pacientes que fizeram radioterapia.

Em suma, esse estudo fornece importantes informações com o melhor nível de evidência hoje disponível na literatura referente aos principais fatores prognósticos em pacientes com CEC cutâneo de cabeça e pescoço com metástases linfonodais. Tais informações podem ser úteis na estratificação dos pacientes, definição da melhor terapêutica, refinamento dos sistemas atuais de estadiamento e recrutamento de pacientes para estudos futuros.

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  1. Alam M, Ratner D. Cutaneous squamous-cell carcinoma. N Engl J Med. 2001 Mar 29;344(13):975-83. Review.
  2. Brantsch KD, et al. Analysis of risk factors determining prognosis of cutaneous squamous-cell carcinoma: a prospective study. Lancet Oncol. 2008 Aug;9(8):713-20.
  3. Sahovaler A, et al. Outcomes of Cutaneous Squamous Cell Carcinoma in the Head and Neck Region With Regional Lymph Node Metastasis: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2019 Mar 7.
  4. Amin MB, Edge S, Greene F, et al, eds. AJCC Cancer Staging Manual. 8th ed. New York, NY: Springer; 2017.
  5. National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology (NCCN Guidelines). https://www.nccn.org/professionals/physician_gls/default.aspx#site. Último acesso em 26 de março de 2019.

PET-CT no estadiamento do Câncer de Cabeça e Pescoço para o paciente clinicamente N0: valor preditivo negativo e impacto no manejo cirúrgico.

Por Pedro Collares Maia Filho – Membros do GBCP e Cirurgião de Cabeça e Pescoço em Fortaleza-CE.

           O esvaziamento cervical profilático consiste na remoção cirúrgica das cadeias linfonodais cervicais, responsáveis pela drenagem linfática de um determinado sítio tumoral, mesmo sem haver evidência clínica de metástases linfonodais. Esse ainda é o padrão-ouro para o tratamento do câncer de cabeça e pescoço com risco de metástase linfonodal oculta igual ou superior a 20%, quando a cirurgia é também a modalidade escolhida para o tratamento do tumor primário(1,2).

           Além da possibilidade de promover um novo estadiamento (histopatológico), o esvaziamento cervical profilático nesses casos está associado a uma melhor sobrevida, em comparação com pacientes que tiveram a conduta “wait and see” (expectante) adotada para o manejo do pescoço(2).

            Entretanto, o estadiamento clínico do pescoço vem sendo reavaliado, com o advento do PET-CT(1–3). Será que a introdução dessa nova tecnologia poderia ter impacto suficiente no estadiamento desses casos para permitir a adoção de uma conduta expectante nos pescoços clinicamente negativos (cN0)?

           Uma publicação recente do Journal of Clinical Oncology (Multicenter Trial of [18F]fluorodeoxyglucose Positron Emission Tomography/Computed Tomography Staging of Head and Neck Cancer and Negative Predictive Value and Surgical Impact in the N0 Neck: Results From ACRIN 6685) traz os resultados de um estudo multicêntrico que comparou o estadiamento do pescoço de pacientes com câncer de cabeça e pescoço através do PET-CT com o estadiamento histopatológico(3).

            A pesquisa mostrou que, dos 144 casos estadiados com cN0 pelo PET-CT no pré-operatório, apenas 19 apresentaram resultado falso negativo, ou seja, metástases linfonodais identificadas no histopatológico (pN+). O valor preditivo negativo do PET-CT na amostra estudada foi de 87%, baseado na análise visual do exame. Quando foram adotados cut points de SUVmax para determinação de resultado, os valores preditivos negativos encontrados foram superiores a 93%.

            Embora publicações como essa sejam importantes, mais estudos são necessários antes de validar o método como opção segura para o manejo do pescoço clinicamente negativo no câncer de cabeça e pescoço.

 

Referências:

  1. Shah JP, Patel SG, Singh B. Jatin Shah’s Head and Neck Surgery and Oncology. 4th ed. Elsevier Health Sciences; 2012. 856 p.
  2. Koyfman SA, Ismaila N, Crook D, D’Cruz A, Rodriguez CP, Sher DJ, et al. Management of the Neck in Squamous Cell Carcinoma of the Oral Cavity and Oropharynx: ASCO Clinical Practice Guideline. J Clin Oncol. fevereiro de 2019;JCO1801921.
  3. Lowe VJ, Duan F, Subramaniam RM, Sicks JD, Romanoff J, Bartel T, et al. Multicenter Trial of [18F]fluorodeoxyglucose Positron Emission Tomography/Computed Tomography Staging of Head and Neck Cancer and Negative Predictive Value and Surgical Impact in the N0 Neck: Results From ACRIN 6685. J Clin Oncol [Internet]. 15 de fevereiro de 2019;JCO.18.01182. Available at: https://doi.org/10.1200/JCO.18.01182

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