Impacto do tabagismo no prognóstico de tumores de orofaringe relacionado ao HPV tratados com cirurgia ou radioterapia

 

 

 

 

 

Por Diego Rezende – radioncologista da Oncoclínicas de Recife e membro do GBCP

O tabagismo é um fator de risco claramente estabelecido na literatura para o desenvolvimento de tumores na região de cabeça e pescoço. Tabagistas têm risco significativamente maior de desenvolver câncer de cabeça e pescoço, apresentam geralmente pior prognóstico, sendo esse risco proporcional a quantidade de cigarros consumidos e tempo de consumo1. Além disso, é comprovado que a manutenção do vício de fumar durante e/ou após o tratamento dos tumores de cabeça e pescoço resulta em menores chances de cura e controle da doença2, além de provocar mais efeitos colaterais agudos e tardios3.

Ao mesmo tempo é importante lembrar que nos últimos anos tem aumentado a incidência de um tipo específico de tumor na região de cabeça e pescoço: os tumores de orofaringe relacionados ao Papilomavirus Humano (HPV). Esses tumores ocorrem em pacientes mais jovens e têm prognóstico significativamente melhor. Recente publicação do International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics avaliou a importância do tabagismo no prognóstico deste grupo especifico de pacientes4.

Neste estudo foi feita análise retrospectiva de 352 pacientes todos com diagnóstico de carcinoma epidermóide de orofaringe relacionado ao HPV submetidos a tratamento com finalidade curativa. 27% dos pacientes eram fumantes ativos ao diagnóstico, 40% foram identificados como ex-fumantes e 33% nunca tinham fumado. Pacientes tabagistas apresentaram sobrevida livre de doença e sobrevida global (SG) significativamente piores em comparação com ex-fumantes e pacientes que nunca fumaram, sendo que o prognóstico foi progressivamente pior com o aumento do tempo de exposição ao cigarro. A SG em 05 anos dos pacientes com carga tabágica de 10 maços/ano, 20 maços/ano e 30 maços/ano foi 73,2%, 64,7% e 59,1%, respectivamente. Pacientes tabagistas apresentaram pior prognóstico independentemente do tipo de tratamento utilizado. Entre os pacientes tratados com radioquimioterapia, a SG em 05 anos foi de 64,2% nos pacientes fumantes em comparação com 93,1% entre os ex-fumantes e 78,2% entre os não fumantes. Já entre os pacientes tratados com cirurgia, a SG em 05 anos foi de 57,6% nos fumantes versus 69,6% entre os ex-fumantes e 73,5% entre os que nunca fumaram.

Os resultados desde estudo reforçam a importância de desenvolvermos políticas públicas de combate ao tabagismo e de conscientização da população em geral sobre o impacto do tabagismo não apenas como fator de risco para o desenvolvimento de tumores de cabeça e pescoço, mas também como fator de pior prognóstico desses pacientes incluindo neste contexto, os cada vez mais frequentes, tumores de orofaringe relacionado ao HPV.

  1. Giraldi L, et al. Alcohol and cigarette consumption predict mortality in patients with head and neck cancer: a pooled analysis within the International Head and Neck Cancer Epidemiology (INHANCE) Consortium. Ann Oncol. 2017 Nov 1;28(11):2843-2851.
  2. Browman GP, Wong G, Hodson I, et al. Influence of cigarette smoking on the efficacy of radiation therapy in head and neck cancer. N Engl J Med 1993;328:159-163.
  3. Peppone LJ, Mustian KM, Morrow GR, et al. The effect of cigarette smoking on cancer treatment related side effects. Oncologist 2011;16: 1784-1792.
  4. Vawda N, Banerjee RN, Debenham BJ. Impact of Smoking on Outcomes of HPV-related Oropharyngeal Cancer Treated with Primary Radiation or Surgery. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2019 Apr 1;103(5):1125-1131.

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