Associação de quimioterapia à radioterapia diminui a sobrevida de pacientes com câncer de laringe (glote) inicial (T1-2N0)

Por Diego Rezende – Radioncologista da Oncoclínicas Recife e Membro do GBCP e Aline Lauda Freitas Chaves – Oncologista Clínica da DOM Oncologia e membro do GBCP

            A quimioterapia tem papel importante e claramente estabelecido na literatura no tratamento de tumores localmente avançados de laringe glótica. Contudo, em tumores iniciais (T1-2 N0) seu benefício é incerto, sendo esses tumores geralmente tratados apenas com radioterapia ou com modalidades de tratamento cirúrgico isoladas. Entretanto, determinados subgrupos de tumores glóticos iniciais, em especial pacientes com mobilidade das cordas vocais comprometida, apresentam resultados terapêuticos sub-ótimos, os quais têm motivado o interesse na introdução da quimioterapia no manejo destes tumores1.

Recente publicação do Journal of Clinical Oncology (Addition of Chemotherapy Is Associated With Decreased Survival in Early-Stage (T1-2N0M0) Glottic Squamous Cell Carcinoma Treated With Definitive Radiotherapy) procurou avaliar o benefício do acréscimo da quimioterapia no tratamento destes tumores a partir da revisão dos dados de 4.743 pacientes contidos no programa de Surveillance, Epidemiology, and End Results (SEER) do National Cancer Institute dos Estados Unidos2.

Os resultados deste estudo indicam que a adição da quimioterapia esteve associada a maior mortalidade câncer-específica nos pacientes com carcinoma de células escamosas de laringe glótica T1 e T2 com significância estatística (< 0,001 e < 0,003, respectivamente). Esses resultados se mantiveram quando analisados apenas pacientes T2 N0 com e sem comprometimento da mobilidade das cordas vocais (razão de risco ajustada = 2.084 com = 0,046 e razão de risco ajustada = 2.412 com p < 0,001, respectivamente).

Algumas possíveis explicações para os piores resultados obtidos nos pacientes tratados com radioquimioterapia seriam o menor uso do hipofracionamento nos tumores T2b N0 tratados com quimioterapia (51,6% versus 38,5%) o qual demonstrou melhores resultados em termos de controle local em estudo randomizado fase III3 e o aumento na duração do tratamento em virtude da toxicidade decorrente da adição da quimioterapia o qual está associado a piora do controle local em várias séries disponíveis na literatura4,5.

Os resultados deste estudo devem ser interpretados com cautela em virtude das importantes limitações inerentes à fonte de dados utilizada tais como a falta de informações sobre a dose de radiação utilizada e sobre a sequência da quimioterapia em relação à radioterapia. Apesar disso, os piores resultados obtidos em tumores glóticos T1-2 N0 independente do status de mobilidade das cordas vocais, sugerem que a adição da quimioterapia no tratamento deste grupo de pacientes deve ser restrita a casos bem selecionados e esforços devem ser direcionados para o desenvolvimento de estudos prospectivos que busquem melhorar os nossos resultados terapêuticos.

Referências bibliográficas:

  • ASCO Clinical Practice Guideline for the use of larynx-preservation strategies in the treatment of laryngeal cancer: Guideline summary. J Oncol Pract 2:258-261, 2006.
  • Chenyang Wang, Amar U. Kishan, Ann Raldow, Philip Beron, Deborah J. Wong, Maie St John, Michael L. Steinberg, and Robert Chin. Addition of Chemotherapy Is Associated With Decreased Survival in Early-Stage (T1-2N0M0) Glottic Squamous Cell Carcinoma Treated With Definitive Radiotherapy. JCO Precision Oncology 2019:3, 1-14.
  • Yamazaki H, Nishiyama K, Tanaka E, et al: Radiotherapy for early glottic carcinoma (T1N0M0): Results of prospective randomized study of radiation fraction size and overall treatment time. Int J Radiat Oncol Biol Phys 64:77-82, 2006.
  • van der Voet JCM, Keus RB, Hart AAM, et al: The impact of treatment time and smoking on local control and complications in T1 glottic cancer. Int J Radiat Oncol Biol Phys 42:247-255, 1998.
  • Le Q-TX, Fu KK, Kroll S, et al: Influence of fraction size, total dose, and overall time on local control of T1–T2 glottic carcinoma. Int J Radiat Oncol Biol Phys 39:115-126, 1997.

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