Benefício da Radioterapia com Fracionamentos Alterados em Tumores Glóticos Iniciais

Por Diego Rezende – radioncologista da Oncoclínicas de Recife e membro do GBCP

A radioterapia é uma importante modalidade de tratamento nos cânceres de cabeça e pescoço (CCP), sendo habitualmente feita com doses diárias de 1,8-2,0 Gy/fração administradas de segunda a sexta durante 40-60 dias. Esquemas de fracionamento alterado têm sido avaliados seja com o objetivo de melhorar os resultados em termos de controle local, seja com o objetivo de proporcionar maior comodidade ao paciente diminuindo o número de idas ao departamento de radioterapia para execução do tratamento. Uma das estratégias, denominada de hiperfracionamento, utiliza menor dose por fração com mais de 01 fração por dia. Esse esquema de fracionamento tem sido utilizado em alguns estudos randomizados e dados de metanálise com 11.969 pacientes indicam ganho absoluto na sobrevida global de 8,1% em 05 anos e de 3,9% em 10 anos com o uso do hiperfracionamento quando comparado a outras modalidades de fracionamento em pacientes com CCP localmente avançado tratados com radioterapia exclusiva1. A outra estratégia, denominada de hipofracionamento, utiliza maior dose por fração diminuindo o número de sessões necessárias e, consequentemente, a duração total do tratamento. Ela tem sido preferencialmente testada em CCP iniciais e de pequeno volume e dados de estudos prospectivos randomizados também indicam melhor controle local em tumores iniciais de laringe além de maior conforto ao paciente por proporcionar tratamento significativamente mais curto2,3.

Recente metanálise e revisão sistemática da literatura, publicada em abril/2019 com a participação do MD Anderson Cancer Centere de alguns importantes centros oncológicos do Brasil, reforçou dados da literatura de que esquemas de fracionamento alterado proporcionam benefício em termos de controle local para tumores iniciais de laringe glótica4. Este estudo incluiu 1.762 pacientes com tumores T1 e T2 (tumores iniciais) de laringe glótica recrutados em 04 estudos prospectivos randomizados e 07 estudos retrospectivos e demonstrou melhora estatisticamente significativa no controle local com o uso de fracionamentos alterados. Essa estratégia proporcionou redução no risco de recidiva local de 38% nos estudos randomizados e de 60% nos estudos retrospectivos, sendo que este benefício ocorreu tanto com o uso do hiperfracionamento (redução no risco de recidiva local de 35% – p=0,03) quanto com o uso do hipofracionamento (redução no risco de recidiva local de 45% – p=0,02). O benefício foi evidenciado mesmo nos pacientes com envolvimento da comissura anterior e foi mais evidente em tumores T1 (redução no risco de recidiva local de 51% – p<0,00001), não atingindo significância estatística quando analisados apenas os estudos com mais de 50% de pacientes com tumores T2 (redução no risco de recidiva local de 40% – p=0,15). Vale destacar, porém, que os estudos com predomínio de tumores T2 eram menores incluindo no total apenas 316 pacientes, diminuindo significativamente o poder estatístico desta análise de subgrupo.

Em suma, este estudo reforça que em tumores iniciais de laringe glótica estratégias de fracionamento alterado da radioterapia devem ser consideradas como padrão, com preferência para o hipofracionamento devido ao maior conforto e comodidade que proporciona ao paciente e melhor controle local quando comparado ao fracionamento convencional. Novos estudos randomizados são necessários para confirmar o benefício dessas modalidades de fracionamento alterado em tumores glóticos T2.

 

1- Lacas B, et al; MARCH Collaborative Group. Role of radiotherapy fractionation in head and neck cancers (MARCH): an updated meta-analysis. Lancet Oncol. 2017 Sep;18(9):1221-1237.

2 – Moon SH, et al. A prospective randomized trial comparing hypofractionation with conventional fractionation radiotherapy for T1-2 glottic squamous cell carcinomas: results of a Korean Radiation Oncology Group (KROG-0201) study. Radiother Oncol. 2014 Jan;110(1):98-103.

3 – Yamazaki H, et al. Radiotherapy for early glottic carcinoma (T1N0M0): results of prospective randomized study of radiation fraction size and overall treatment time. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2006 Jan 1;64(1):77-82. Epub 2005 Sep 19.

4 – Sapienza LG, Ning MS, Taguchi S, Calsavara VF, Pellizzon ACA, Gomes MJL, Kowalski LP, Baiocchi G. Altered-fractionation radiotherapy improves local control in early-stage glottic carcinoma: A systematic review and meta-analysis of 1762 patients. Oral Oncol. 2019 Jun;93:8-14.

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