Novidades do Encontro Anual da American Head and Neck Society 2019

Por Aline Lauda Freitas Chaves, Oncologista Clínica da DOM Oncologia Clínica e Membro do GBCP

Nos dias 2 e 3 de maio/19 ocorreu o Congresso da AHNS em Austin.

Com o tema:  Cuidado na Saúde Baseado em Valor no Câncer de Cabeça e Pescoço o foco das discussões foi como oferecer valor ao paciente com CCP. Michael Porter, legendário nome da Harvard Business School fez uma das principais palestras, mostrando como entregar valor ao paciente. VALOR = RESULTADO/CUSTOS. A mensagem final é que temos que analisar nossos resultados e custos envolvidos no ciclo de cuidado do paciente e buscar benchmarking na área.

O programa do evento foi baseado em grandes debates, com mesas multidisciplinares, envolvendo muitas vezes cirurgiões, patologistas, radioncologistas, oncologistas e todos os profissionais de suporte ao paciente.

Alguns debates:

-Tireoidectomia: Aberta X Robótica X Transoral

-Radioterapia: IMRT X Próton

-Câncer de laringe inicial: radioterapia X cirurgia

-Câncer de laringe avançado: QT concomitante a RT X tratamento sequencial

-Câncer de Orofaringe HPV positivo com linfonodo com extensão extracapsular microscópica: QT X No QT

-Câncer de orofaringe HPV positive com linfonodo com extensão extracapsular macroscópica: Cirurgia upfrontX QT concomitante a RT

-Melanoma da CP: Biópsia de linfonodo sentinela X Esvaziamento cervical completo para linfonodo sentinela positivo

-Tratamento adjuvante no melanoma de CP com linfonodo positivo: Radioterapia X Imunoterapia

Podemos ver que foram grandes debates de situações que lidamos no dia a dia. Uma conclusão geral de todos eles: muitas vezes não existe certo e errado – existe sim a individualização do tratamento, buscando o melhor resultado, melhor custo-benefício e sempre tratar o paciente em equipe multidisciplinar.

 

Tivemos a participação do Brasil em 5 estudos, sendo que o GBCP apresentou pôster com seus resultados do estudo:

POPULATION AWARENESS OF HEAD AND NECK CANCERS AND ITS RISK FACTORS AND PREVENTION MEASURES IN BRAZIL Aline L Chaves1, Vinicius C Souza2, Diego C Morais3, Eduardo D e Morais4, Luiz P Kowalski5, Gustavo N Marta6, Gilberto Castro Junior6; 1DOM Oncologia, 2Clinica AMO, 3Centro de Oncologia de Caruaru, 4Núcleo de Oncologia da Bahia, 5AC Camargo Cancer Center, 6Instituto do Cancer do Estado de Sao Paulo

OS demais estudos foram:

Pôster:

– KI-67 AND CK-19 ARE INDEPENDENT PREDICTORS OF LOCOREGIONAL RECURRENCE IN PAPILLARY THYROID CARCINOMA. Aline de Oliveira Ribeiro Viana, MD, João Gonçalves Filho, PhD, MD, Ana Lúcia Noronha Francisco, PhD, DDS, Clóvis Antônio Lopes Pinto, PhD, MD, Luiz Paulo Kowalski, PhD, MD; A C Camargo Cancer Center, Sao Paulo, Brazil

– PROGNOSTIC FACTORS RELATED TO THE NECK METASTASIS OF ORAL CANCER. Hugo F Kohler, MD, Genival B Carvalho, MD, PhD, Luiz P Kowalski; A C Camargo Cancer Center

– HMG2 AND PLAG1 PROTEIN EXPRESSION IN PLEOMORPHIC ADENOMA TUMORIGENESIS AND IN THE PROGRESSION TO CARCINOMA EX PLEOMORPHIC ADENOMA. Louyse V Carvalho1, João F Scarini2, Reydson Alcides L Souza2, Erika S Egal1, Antonio S Martins1, André Casarim1, Agrício.N Crespo1, Oslei P Almeida1, Albina Altemani1, FernandaV Mariano1, Luiz P Kowalski3;1School of Medical Sciences – UNICAMP, 2Piracicaba Dental School – UNICAMP, 3AC Camargo Cancer Center

Best of endocrine abstracts:

– THE ROLE OF POSTOPERATIVE STIMULATED SERUM THYROGLOBULIN MEASUREMENT FOR PREDICTING RECUR- RENCE IN PATIENTS WITH PAPILLARY THYROID CANCER: AN ANALYSIS INVOLVING 1,319 PATIENTS : Andre Ywata De Carvalho, MD, MBA, Hugo Fontain Kohler, MD, PHD, Renan Bezerra Lira, MD, PHD, Thiago Celestino Chulam, MD, PHD, Luiz Paulo Kowalski, MD, PHD; A.C.Camargo Cancer Center

 

Por fim, o Brasil tem alta incidência de CCP.  Temos um vasto campo para estudar, pesquisar e elaborar políticas de saúde dedicadas a esses pacientes. Essa é uma das missões do GBCP. Participe!

 

 

 

 

 

Impacto do tabagismo no prognóstico de tumores de orofaringe relacionado ao HPV tratados com cirurgia ou radioterapia

 

 

 

 

 

Por Diego Rezende – radioncologista da Oncoclínicas de Recife e membro do GBCP

O tabagismo é um fator de risco claramente estabelecido na literatura para o desenvolvimento de tumores na região de cabeça e pescoço. Tabagistas têm risco significativamente maior de desenvolver câncer de cabeça e pescoço, apresentam geralmente pior prognóstico, sendo esse risco proporcional a quantidade de cigarros consumidos e tempo de consumo1. Além disso, é comprovado que a manutenção do vício de fumar durante e/ou após o tratamento dos tumores de cabeça e pescoço resulta em menores chances de cura e controle da doença2, além de provocar mais efeitos colaterais agudos e tardios3.

Ao mesmo tempo é importante lembrar que nos últimos anos tem aumentado a incidência de um tipo específico de tumor na região de cabeça e pescoço: os tumores de orofaringe relacionados ao Papilomavirus Humano (HPV). Esses tumores ocorrem em pacientes mais jovens e têm prognóstico significativamente melhor. Recente publicação do International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics avaliou a importância do tabagismo no prognóstico deste grupo especifico de pacientes4.

Neste estudo foi feita análise retrospectiva de 352 pacientes todos com diagnóstico de carcinoma epidermóide de orofaringe relacionado ao HPV submetidos a tratamento com finalidade curativa. 27% dos pacientes eram fumantes ativos ao diagnóstico, 40% foram identificados como ex-fumantes e 33% nunca tinham fumado. Pacientes tabagistas apresentaram sobrevida livre de doença e sobrevida global (SG) significativamente piores em comparação com ex-fumantes e pacientes que nunca fumaram, sendo que o prognóstico foi progressivamente pior com o aumento do tempo de exposição ao cigarro. A SG em 05 anos dos pacientes com carga tabágica de 10 maços/ano, 20 maços/ano e 30 maços/ano foi 73,2%, 64,7% e 59,1%, respectivamente. Pacientes tabagistas apresentaram pior prognóstico independentemente do tipo de tratamento utilizado. Entre os pacientes tratados com radioquimioterapia, a SG em 05 anos foi de 64,2% nos pacientes fumantes em comparação com 93,1% entre os ex-fumantes e 78,2% entre os não fumantes. Já entre os pacientes tratados com cirurgia, a SG em 05 anos foi de 57,6% nos fumantes versus 69,6% entre os ex-fumantes e 73,5% entre os que nunca fumaram.

Os resultados desde estudo reforçam a importância de desenvolvermos políticas públicas de combate ao tabagismo e de conscientização da população em geral sobre o impacto do tabagismo não apenas como fator de risco para o desenvolvimento de tumores de cabeça e pescoço, mas também como fator de pior prognóstico desses pacientes incluindo neste contexto, os cada vez mais frequentes, tumores de orofaringe relacionado ao HPV.

  1. Giraldi L, et al. Alcohol and cigarette consumption predict mortality in patients with head and neck cancer: a pooled analysis within the International Head and Neck Cancer Epidemiology (INHANCE) Consortium. Ann Oncol. 2017 Nov 1;28(11):2843-2851.
  2. Browman GP, Wong G, Hodson I, et al. Influence of cigarette smoking on the efficacy of radiation therapy in head and neck cancer. N Engl J Med 1993;328:159-163.
  3. Peppone LJ, Mustian KM, Morrow GR, et al. The effect of cigarette smoking on cancer treatment related side effects. Oncologist 2011;16: 1784-1792.
  4. Vawda N, Banerjee RN, Debenham BJ. Impact of Smoking on Outcomes of HPV-related Oropharyngeal Cancer Treated with Primary Radiation or Surgery. Int J Radiat Oncol Biol Phys. 2019 Apr 1;103(5):1125-1131.

FATORES PROGNÓSTICOS EM PACIENTES COM CARCINOMA DE CÉLULAS ESCAMOSAS DE PELE NA REGIÃO DE CABEÇA E PESCOÇO COM DISSEMINAÇÃO LINFONODAL

 

 

 

 

 

Por Diego Rezende – Radioncologista da Oncoclínicas de Recife e Membro do GBCP

Os cânceres de pele são os tumores mais frequentes em todo o mundo. Entre eles, o segundo tipo mais comum é o carcinoma cutâneo de células escamosas (CEC cutâneo), o qual surge predominantemente na região de cabeça e pescoço, em pessoas de pele clara e com forte associação à exposição solar1. A grande maioria dos CEC cutâneos de cabeça e pescoço são localizados, porém aproximadamente 5% dos casos apresentam disseminação para os linfonodos regionais, com piores resultados em termos de sobrevida e, consequentemente, requerendo tratamentos mais agressivos2. Recente publicação da JAMA Otolaryngology – Head & Neck Surgery realizou revisão sistemática da literatura e metaanálise buscando identificar os principais fatores prognósticos em pacientes com CEC cutâneo com metástases para linfonodos na região de cabeça e pescoço3.

Após pesquisa nas principais bases de dados da literatura, os autores identificaram 21 estudos que preenchiam os critérios de inclusão, sendo 20 estudos observacionais e apenas 01 estudo randomizado. A análise final incluiu 3.534 pacientes e objetivou identificar os principais fatores de risco associados à piora da sobrevida global, sobrevida câncer-específica e controle locorregional.

Os fatores identificados como preditores de pior sobrevida global foram:

  • presença de imunossupressão, a qual também esteve associada a pior sobrevida câncer-específica. Este critério, inclusive, passou a ser considerado no estadiamento mais recente (8ª edição) do AJCC Cancer Staging Manual como fator prognóstico essencial para a grande maioria dos tumores cutâneos não-melanoma4;
  • presença de extensão linfonodal extracapsular mais uma vez corroborando as mudanças na última edição do AJCC Cancer Staging Manual que reclassificaram esses pacientes para N3b (classificação linfonodal de pior prognóstico no TNM)4;
  • razão do número de linfonodos comprometidos pelo número de linfonodos ressecados elevada, embora os autores reconheçam a significativa heterogeneidade entre os estudos com resultados conflitantes na literatura;
  • idade avançada, embora as implicações clínicas não sejam tão significativas e a heterogeneidade entre os estudos tenha sido bastante elevada.

Por fim, os autores enfatizam que o uso da radioterapia adjuvante à cirurgia resultou em melhor sobrevida global e melhor sobrevida câncer-específica. Os pacientes que não foram submetidos à adjuvância com radioterapia apresentaram aproximadamente metade da sobrevida global e sobrevida câncer-específica dos pacientes irradiados. Vale destacar que, embora o uso da radioterapia adjuvante seja recomendado pelos principais guidelines para pacientes com CEC cutâneo de cabeça e pescoço com metástases linfonodais entre eles a última versão do NCCN5, esses resultados podem ser influenciados por possíveis vieses na seleção dos pacientes que fizeram radioterapia.

Em suma, esse estudo fornece importantes informações com o melhor nível de evidência hoje disponível na literatura referente aos principais fatores prognósticos em pacientes com CEC cutâneo de cabeça e pescoço com metástases linfonodais. Tais informações podem ser úteis na estratificação dos pacientes, definição da melhor terapêutica, refinamento dos sistemas atuais de estadiamento e recrutamento de pacientes para estudos futuros.

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  1. Alam M, Ratner D. Cutaneous squamous-cell carcinoma. N Engl J Med. 2001 Mar 29;344(13):975-83. Review.
  2. Brantsch KD, et al. Analysis of risk factors determining prognosis of cutaneous squamous-cell carcinoma: a prospective study. Lancet Oncol. 2008 Aug;9(8):713-20.
  3. Sahovaler A, et al. Outcomes of Cutaneous Squamous Cell Carcinoma in the Head and Neck Region With Regional Lymph Node Metastasis: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Otolaryngol Head Neck Surg. 2019 Mar 7.
  4. Amin MB, Edge S, Greene F, et al, eds. AJCC Cancer Staging Manual. 8th ed. New York, NY: Springer; 2017.
  5. National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology (NCCN Guidelines). https://www.nccn.org/professionals/physician_gls/default.aspx#site. Último acesso em 26 de março de 2019.

PET-CT no estadiamento do Câncer de Cabeça e Pescoço para o paciente clinicamente N0: valor preditivo negativo e impacto no manejo cirúrgico.

Por Pedro Collares Maia Filho – Membros do GBCP e Cirurgião de Cabeça e Pescoço em Fortaleza-CE.

           O esvaziamento cervical profilático consiste na remoção cirúrgica das cadeias linfonodais cervicais, responsáveis pela drenagem linfática de um determinado sítio tumoral, mesmo sem haver evidência clínica de metástases linfonodais. Esse ainda é o padrão-ouro para o tratamento do câncer de cabeça e pescoço com risco de metástase linfonodal oculta igual ou superior a 20%, quando a cirurgia é também a modalidade escolhida para o tratamento do tumor primário(1,2).

           Além da possibilidade de promover um novo estadiamento (histopatológico), o esvaziamento cervical profilático nesses casos está associado a uma melhor sobrevida, em comparação com pacientes que tiveram a conduta “wait and see” (expectante) adotada para o manejo do pescoço(2).

            Entretanto, o estadiamento clínico do pescoço vem sendo reavaliado, com o advento do PET-CT(1–3). Será que a introdução dessa nova tecnologia poderia ter impacto suficiente no estadiamento desses casos para permitir a adoção de uma conduta expectante nos pescoços clinicamente negativos (cN0)?

           Uma publicação recente do Journal of Clinical Oncology (Multicenter Trial of [18F]fluorodeoxyglucose Positron Emission Tomography/Computed Tomography Staging of Head and Neck Cancer and Negative Predictive Value and Surgical Impact in the N0 Neck: Results From ACRIN 6685) traz os resultados de um estudo multicêntrico que comparou o estadiamento do pescoço de pacientes com câncer de cabeça e pescoço através do PET-CT com o estadiamento histopatológico(3).

            A pesquisa mostrou que, dos 144 casos estadiados com cN0 pelo PET-CT no pré-operatório, apenas 19 apresentaram resultado falso negativo, ou seja, metástases linfonodais identificadas no histopatológico (pN+). O valor preditivo negativo do PET-CT na amostra estudada foi de 87%, baseado na análise visual do exame. Quando foram adotados cut points de SUVmax para determinação de resultado, os valores preditivos negativos encontrados foram superiores a 93%.

            Embora publicações como essa sejam importantes, mais estudos são necessários antes de validar o método como opção segura para o manejo do pescoço clinicamente negativo no câncer de cabeça e pescoço.

 

Referências:

  1. Shah JP, Patel SG, Singh B. Jatin Shah’s Head and Neck Surgery and Oncology. 4th ed. Elsevier Health Sciences; 2012. 856 p.
  2. Koyfman SA, Ismaila N, Crook D, D’Cruz A, Rodriguez CP, Sher DJ, et al. Management of the Neck in Squamous Cell Carcinoma of the Oral Cavity and Oropharynx: ASCO Clinical Practice Guideline. J Clin Oncol. fevereiro de 2019;JCO1801921.
  3. Lowe VJ, Duan F, Subramaniam RM, Sicks JD, Romanoff J, Bartel T, et al. Multicenter Trial of [18F]fluorodeoxyglucose Positron Emission Tomography/Computed Tomography Staging of Head and Neck Cancer and Negative Predictive Value and Surgical Impact in the N0 Neck: Results From ACRIN 6685. J Clin Oncol [Internet]. 15 de fevereiro de 2019;JCO.18.01182. Available at: https://doi.org/10.1200/JCO.18.01182

Associação de quimioterapia à radioterapia diminui a sobrevida de pacientes com câncer de laringe (glote) inicial (T1-2N0)

Por Diego Rezende – Radioncologista da Oncoclínicas Recife e Membro do GBCP e Aline Lauda Freitas Chaves – Oncologista Clínica da DOM Oncologia e membro do GBCP

            A quimioterapia tem papel importante e claramente estabelecido na literatura no tratamento de tumores localmente avançados de laringe glótica. Contudo, em tumores iniciais (T1-2 N0) seu benefício é incerto, sendo esses tumores geralmente tratados apenas com radioterapia ou com modalidades de tratamento cirúrgico isoladas. Entretanto, determinados subgrupos de tumores glóticos iniciais, em especial pacientes com mobilidade das cordas vocais comprometida, apresentam resultados terapêuticos sub-ótimos, os quais têm motivado o interesse na introdução da quimioterapia no manejo destes tumores1.

Recente publicação do Journal of Clinical Oncology (Addition of Chemotherapy Is Associated With Decreased Survival in Early-Stage (T1-2N0M0) Glottic Squamous Cell Carcinoma Treated With Definitive Radiotherapy) procurou avaliar o benefício do acréscimo da quimioterapia no tratamento destes tumores a partir da revisão dos dados de 4.743 pacientes contidos no programa de Surveillance, Epidemiology, and End Results (SEER) do National Cancer Institute dos Estados Unidos2.

Os resultados deste estudo indicam que a adição da quimioterapia esteve associada a maior mortalidade câncer-específica nos pacientes com carcinoma de células escamosas de laringe glótica T1 e T2 com significância estatística (< 0,001 e < 0,003, respectivamente). Esses resultados se mantiveram quando analisados apenas pacientes T2 N0 com e sem comprometimento da mobilidade das cordas vocais (razão de risco ajustada = 2.084 com = 0,046 e razão de risco ajustada = 2.412 com p < 0,001, respectivamente).

Algumas possíveis explicações para os piores resultados obtidos nos pacientes tratados com radioquimioterapia seriam o menor uso do hipofracionamento nos tumores T2b N0 tratados com quimioterapia (51,6% versus 38,5%) o qual demonstrou melhores resultados em termos de controle local em estudo randomizado fase III3 e o aumento na duração do tratamento em virtude da toxicidade decorrente da adição da quimioterapia o qual está associado a piora do controle local em várias séries disponíveis na literatura4,5.

Os resultados deste estudo devem ser interpretados com cautela em virtude das importantes limitações inerentes à fonte de dados utilizada tais como a falta de informações sobre a dose de radiação utilizada e sobre a sequência da quimioterapia em relação à radioterapia. Apesar disso, os piores resultados obtidos em tumores glóticos T1-2 N0 independente do status de mobilidade das cordas vocais, sugerem que a adição da quimioterapia no tratamento deste grupo de pacientes deve ser restrita a casos bem selecionados e esforços devem ser direcionados para o desenvolvimento de estudos prospectivos que busquem melhorar os nossos resultados terapêuticos.

Referências bibliográficas:

  • ASCO Clinical Practice Guideline for the use of larynx-preservation strategies in the treatment of laryngeal cancer: Guideline summary. J Oncol Pract 2:258-261, 2006.
  • Chenyang Wang, Amar U. Kishan, Ann Raldow, Philip Beron, Deborah J. Wong, Maie St John, Michael L. Steinberg, and Robert Chin. Addition of Chemotherapy Is Associated With Decreased Survival in Early-Stage (T1-2N0M0) Glottic Squamous Cell Carcinoma Treated With Definitive Radiotherapy. JCO Precision Oncology 2019:3, 1-14.
  • Yamazaki H, Nishiyama K, Tanaka E, et al: Radiotherapy for early glottic carcinoma (T1N0M0): Results of prospective randomized study of radiation fraction size and overall treatment time. Int J Radiat Oncol Biol Phys 64:77-82, 2006.
  • van der Voet JCM, Keus RB, Hart AAM, et al: The impact of treatment time and smoking on local control and complications in T1 glottic cancer. Int J Radiat Oncol Biol Phys 42:247-255, 1998.
  • Le Q-TX, Fu KK, Kroll S, et al: Influence of fraction size, total dose, and overall time on local control of T1–T2 glottic carcinoma. Int J Radiat Oncol Biol Phys 39:115-126, 1997.

GBCP apresentará estudo no Congresso Anual da American Head and Neck Society (AHNS)

Estudo conduzido em 2018 pelo Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço foi selecionado para ser apresentado no Congresso Anual da American Head and Neck Society em 01 de maio de 2019 em Austin, no Texas.

O estudo avaliou os conhecimentos da população brasileira sobre o câncer de cabeça e pescoço e seus fatores de risco. O questionário foi respondido por mais de 4.500 pessoas em todos os estados do Brasil.

Com os resultados obtidos pelo estudo, o GBCP poderá organizar campanhas mais direcionadas e fornecer à população brasileira informações úteis para o diagnóstico precoce e prevenção deste tumor, que é um dos mais prevalentes no Brasil.

Agradecemos a todos que colaboraram com o questionário, respondendo e/ou o divulgando! Apresentaremos seus resultados em maio/2019.

blog ESMO

Highlights ESMO 2018 parte II: estudo KEYNOTE 048

Por Dr Gilberto Castro Jr, Oncologista do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e Hospital Sírio Libanês, SP. 

O KEYNOTE 048 é um estudo de fase 3, aberto, randomizado, de três braços, que comparou quimioterapia aos moldes do estudo EXTREME (cetuximabe, cisplatina e fluorouracil – PFE) com pembrolizumabe 200mg a cada 03 semanas isolado (I) ou associado à quimioterapia sem cetuximabe (PF + I) para pacientes com diagnóstico de carcinoma escamocelular de cabeça e pescoço recidivado ou metastático (CECCP R/M) em primeira linha. Os objetivos primários foram sobrevida livre de progressão (SLP) e sobrevida global (SG). Foi apresentada a segunda análise interina na ESMO 2018, com 882 pacientes recrutados. A análise por subgrupo considerava o escore combinado positivo (CPS) ≥ 20 ou ≥ 1. A SG dos pacientes que receberam pembrolizumabe foi superior a dos pacientes submetidos à PFE (com CPS ≥ 20, mediana de 14,9 vs 10,7 meses e p = 0,0007 e com CPS ≥ 1, mediana 12,3 vs 10,3 meses e p = 0,0086). O braço I não prolongou a SLP em CPS ≥ 20 (p = 0,5), e por conseguinte não foram feitas outras análises de SLP para I vs PFE. A SG do braço PF + I foi não-inferior e superior a PFE para a população total (mediana 13,0 vs 10,7 meses e p = 0,0034). Apesar de a taxa de resposta global confirmada (ORR) dos pacientes tratados com quimioterapia ser melhor que a dos pacientes tratados com imunoterapia isolada, a duração da resposta foi marcantemente melhor para os pacientes do braço I, com duração de resposta mediana, entre os pacientes com CPS ≥ 20, de 20,9 meses frente a 4,2 meses para os pacientes do braço PFE. Quanto aos efeitos colaterais, os pacientes que receberam imunoterapia isolada apresentaram 17% de efeitos adversos grau 3 ou 4, enquanto os outros grupos que receberam quimioterapia apresentaram 69% (esquema PFE) e 71% (esquema PF + I). Esses achados devem levar à incorporação do pembrolizumabe, seja em uso isolado ou em combinação com quimioterapia, para o tratamento de primeira linha dos pacientes com CECCP R/M.

blog ESMO

Highlights da ESMO 2018 sobre Câncer de Cabeça e Pescoço

Eduardo Dias de Moraes, oncologista clínico do NOB- grupo Oncoclínicas

O congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, ESMO, desse ano, ocorreu nos dias 19-23 de outubro, na agradável cidade de Munique, Alemanha.

A imunoncologia se destacou como a grande vedete do evento como um todo e, em particular, nas neoplasias de cabeça e pescoço. Houve, inclusive, uma sessão específica dedicada a imunoterapia em tumores de cabeça e pescoço. O estudo mais esperado foi a apresentação do estudo Keynote 048, que será comentado futuramente pelo Dr. Gilberto Castro, um dos autores do estudo. Também foi destacada uma análise post hoc do estudo Keynote 040 que avaliou o benefício do tratamento de segunda linha de pacientes com carcinoma escamocelular de cabeça e pescoço metastático ou recidivado com Pembrolizumabe versus (vs) tratamento com quimioterapia a critério do investigador (Metotrexate, Docetaxel ou Cetuximabe). Foram apresentadas a sobrevida global (SG) mediana por tratamento: 8,4 meses para Pembrolizumabe, 6,0 meses Metotrexate, 7,1 meses Cetuximabe e 7,7 meses Docetaxel (Fig.1); e a SG para pacientes previamente tratados ou não com Cetuximabe. Nesta análise, apenas os pacientes sem exposição prévia ao Cetuximabe obtiveram uma tendência de ganho de SG mediana com Pembrolizumabe, 8,2 versus 6,9 meses, HR 0,78, p=0,06 (Fig.2).

Uma das possíveis explicações para a perda de benefício do Pembrolizumabe em pacientes previamente tratados com Cetuximabe pode ser que estes são mais pesadamente tratados e a outra seria uma possível diminuição de PD(L)-1 e da resposta imune com a exposição prévia ao Cetuximabe.

Outro estudo apresentado, na sessão oral de cabeça e pescoço, foi o estudo De-ESCALaTE HPV, que randomizou 334 pacientes com carcinoma escamocelular de orofaringe, p16 positivo por imunohistoquímica, de baixo risco pela classificação de Ang, AJCC TNM 7 estadio clínico III-IVa (T3-4N0M0 ou T1-4N1M0), ECOG 0-2; a radioterapia 70Gy, em 35 frações em 7 semanas, associado a Cisplatina 100mg/m2 D1,22,43 ou a Cetuximabe semanal com a mesma dose de radioterapia. O objetivo primário foi toxicidade aguda e tardia e os objetivos secundários foram avaliar toxicidade severa, qualidade de vida, deglutição, sobrevida global, recorrência e custo efetividade. Assim como o estudo RTOG 1016, apresentado na ASTRO deste ano, o estudo De-ESCALaTE HPV não demonstrou diferença de toxicidade aguda e tardia ou qualidade vida nos pacientes tratados com radioterapia e Cetuximabe (Fig.3), entretanto eles tiveram uma pior sobrevida global em 2 anos (89,7% vs 97,2%), HR 4,40, p=0,004, (Fig.4), e maior taxa de recidiva local (3% vs 12%) e a distância (3% vs 9%). Portanto radioterapia associado a Cisplatina 100mg/m2 a cada 3 semanas segue sendo o tratamento padrão para pacientes com carcinoma de orofaringe, HPV+, de baixo risco.

[caption id="attachment_443" align="alignleft" width="1941"] Figura 1[/caption] [caption id="attachment_442" align="alignleft" width="1962"] Figura 2[/caption] [caption id="attachment_441" align="alignleft" width="640"] Figura 3[/caption] [caption id="attachment_438" align="alignleft" width="640"] Figura 4 [/caption]

Highlights sobre Neoplasia de Cabeça e Pescoço na ASTRO 2018

Por: Felipe Teles de Arruda (Radiooncologista do Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto) e Diego Chaves Rezende Morais (Radiooncologista do Grupo Oncoclínicas Recife)

 

A conferência anual da Sociedade Americana de Radioterapia (ASTRO) é um evento internacional de referência em radioterapia e que neste ano celebra a sua 60 ª edição realizada de 21 a 24 de outubro no Centro de Convenções Henry B. Gonzalez em San Antonio no Texas.

Houve grandes novidades sobre as neoplasias de cabeça e pescoço e uma das mais aguardadas foi o trabalho do NRG-RTOG 1016 que demonstrou que a quimioterapia com cisplatina, combinada com a radioterapia, produz os melhores resultados e deve ser considerada o tratamento padrão nos pacientes com tumores de orofaringe HPV positivo.

Este estudo de fase III, de não-inferioridade, incluiu 805 pacientes com tumores de orofaringe locoregionalmente avançados e HPV positivos (p16 positivo) os quais foram tratados com dois ciclos de quimioterapia com cisplatina a cada três semanas (dose total 200mg/m2)  mais radioterapia (IMRT) ou cetuximabe semanal com o mesmo esquema radioterápico. Os resultados foram apresentados precocemente após análise interina dos dados demonstrar sobrevida global e sobrevida livre de progressão inferiores com o uso do cetuximabe. A estimativa de falha loco-regional em 5 anos e a taxa de metástases à distância também se tornaram consideravelmente menores com o uso da cisplatina. A sobrevida em 5 anos foi de 84,6% no grupo da cisplatina versus 77,9% no grupo do cetuximabe. Portanto a não-inferioridade de cetuximabe em relação à cisplatina não pode ser demonstrada. Esses resultados confirmam a radioterapia associada à cisplatina concomitante como tratamento padrão nestes pacientes. Os melhores resultados com cisplatina foram obtidos às custas de pequeno aumento na incidência dos efeitos colaterais (82% versus 77%), embora sem significância estatística. As medidas de qualidade de vida foram coletadas, mas ainda não foram relatadas.

Outro estudo apresentado foi: “Circulação plasmática do DNA HPV tumoral como vigilância da recorrência do câncer de orofaringe associado ao HPV” apresentando por Bhisham Chera, MD — University of North Carolina School of Medicine. Neste estudo prospectivo 89 pacientes com tumores relacionados ao HPV (p16 positivo) tratados com radioquimioterapia foram submetidos à análise do DNA HPV circulante no sangue (ctHPVDNA). 73 dos 89 pacientes mantiveram ctHPVDNA indetectável e nenhum deles apresentou recidiva tumoral. Dos 16 pacientes com ctHPVDNA detectável, 08 efetivamente foram diagnosticados com recidiva tumoral. Tais resultados indicam que o método possui sensibilidade de 100%, especificidade de 90%, valor preditivo negativo de 100% e valor preditivo positivo de 50%. Estudos futuros devem ser feitos para avaliar se o teste pode melhorar a detecção precoce da recorrência do câncer e, ao mesmo tempo, reduzir os custos direcionando e otimizando a vigilância radiográfica.

Neste ano também ocorreram aulas relacionadas a contornos em radioterapia com sessão especial para cabeça e pescoço que incluiu segmentação e definição de volumes alvo em circunstâncias clínicas comuns. Foram discutidas doses de radiação recomendadas para vários sítios anatômicos e cenários clínicos além do contorno de volumes-alvo e órgãos críticos em risco. A ASTRO 2018 termina e deixa a sensação de quanto podemos evoluir em nossas pesquisas em radioterapia e especialmente nas condutas que envolvem as neoplasias de cabeça e pescoço.

O Câncer de Cabeça e Pescoço no GLOBOCAN 2018

Por Gabriela Freitas Chaves, oncologista do  Hospital Integrado do Câncer Materdei 

GLOBOCAN é um projeto do IARC (International Agency for Research on Cancer) que avalia estimativas de incidência e mortalidade por câncer, através de dados de cada país/região, utilizando métodos estatísticos variados e gerando dados de alta qualidade.

Em setembro de 2018 foram liberados os dados do novo GLOBOCAN, englobando 36 sítios de câncer, com dados de 185 países.

Como dados gerais temos:
Há um crescimento contínuo e rápido na incidência e mortalidade por câncer em todo o mundo;
Estimam-se, para 2018, 18.1 milhões de novos casos de câncer (17 milhões, excluindo pele não-melanoma) e 9.6 milhões de mortes relacionadas ao câncer;
O risco cumulativo de incidência indica que 1 em cada 8 homens e 1 em cada 10 mulheres desenvolverão a doença ao longo da vida.

 O QUE O NOVO GLOBOCAN TRAZ DE NOVO SOBRE O CÂNCER DE CABEÇA E PESCOÇO?

 Os subsítios da cabeça e pescoço avaliados no GLOBOCAN foram:

 -Lábio e cavidade oral (C00-C06)
– Glândula salivar (C07-C08)
– Orofaringe (C09-C10)
– Nasofaringe (C11)
– Hipofaringe (C12-C13)
– Laringe (C32)
– Tireóide (C73)

Quando se somam todos os subsítios, estes tumores ocupam o TERCEIRO lugar em incidência, com 1.454.892 novos casos em 2018, ficando atrás somente dos tumores de pulmão (2.093.876) e mama (2.088.849) e à frente do câncer de próstata (1.276.106) .
Quando analisamos os sexos separadamente, os tumores de cabeça e pescoço são a quarta causa mais comum de câncer em homens (796.946 casos), ficando atrás de pulmão, próstata e colorretal. Nas mulheres também são a quarta causa mais comum (657.966 casos), atrás de mama, colorretal e pulmão, sendo os tumores de tireoide o mais frequentes nesta população (436.344 casos).
A incidência pode variar de acordo com a região do mundo. Nos países em desenvolvimento, em homens, o câncer de lábio e cavidade oral por si só é o terceiro em incidência, em parte pela alta taxa da doença na Índia, que corresponde a 36% da população de países com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH).
Entender as estatísticas mundiais sobre câncer, no nosso caso o câncer de cabeça e pescoço, é essencial para propormos medidas de prevenção e diagnóstico precoce. Medidas como políticas anti-tabagismo, vacinação contra o HPV e melhora das condições da saúde oral e dieta da população terão um impacto significativo na incidência e mortalidade desta doença.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências:

Bray F, Ferlay J, Soerjomataram I et al. Global Cancer Statistics 2018: GLOBOCAN Estimates of Incidence and Mortality Worldwide for 36 Cancers in 185 Countries. CA: A Cancer Journal for Clinicians 2018;0: 1-31.

Antonia S, Soerjomatarama I, Møllerb B et al. An assessment of GLOBOCAN methods for deriving national estimates of cancer incidence. Bulletin of the World Health Organization 2016;94:174-184.

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