É NOTÍCIA

Categoria : Publicações Científicas

post_paper-leandro

Com benefícios e não inferioridade oncológica, biópsia de linfonodo sentinela é opção em câncer de cavidade oral precoce

Quando comparada ao esvaziamento cervical (retirada dos nódulos no pescoço por cirurgia), a biópsia do linfonodo sentinela resulta em vantagens como menor tempo cirúrgico, menor tempo de internação, menor risco de complicações e melhor qualidade de vida para o paciente com carcinoma de células escamosas, em estadio inicial, na cavidade oral (OCSCC). Esses benefícios foram demonstrados no estudo Neck Dissections Based on Sentinel Lymph Node Navigation Versus Elective Neck Dissections in Early Oral Cancers: A Randomized, Multicenter, and Noninferiority Trial, publicado no Journal of Clinical Oncology, da American Society of Clinical Oncology (ASCO).

 

Realizado por 18 serviços japoneses, o objetivo neste estudo foi comparar: braço 1 (composto por pacientes com carcinoma de células escamosas precoce de cavidade oral com tumor em estádio I ou II, linfonodo negativo e sem metástase à distância tratados com esvaziamento cervical eletivo – ND -, tradicional) com o braço 2 (aqueles tratados com biópsia de linfonodo sentinela – SLNB), usando sobrevivência, função dos nervos do pescoço e complicações como desfechos.

 

“Esses desfechos são os habituais na avaliação da técnica. Além disso, o recorte de três anos de seguimento é o padrão no câncer oral. Isso porque a maior parte das recidivas acontecem nesse período, o que já foi amplamente demonstrado em outros estudos. Analisando o artigo, os resultados foram semelhantes em termos de resultado oncológico, com vantagem funcional para a biópsia de linfonodo sentinela”, comenta o cirurgião de cabeça e pescoço e pesquisador Dr. Leandro Luongo Matos, que atua em hospitais como o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e no Hospital Israelita Albert Einstein. Leandro analisa a pesquisa.

 

Na metodologia adotada, os pacientes selecionados apresentavam idade a partir de 18 anos, diagnóstico de OCSCC, não tratados previamente e com confirmação histológica pela Union for International Cancer Control a partir da classificação TNM de Tumores Malignos da 7ª edição T1-2. Os pacientes elegíveis também tinham pescoço negativo, sem metástase à distância.

 

O desfecho primário analisado foi a taxa de sobrevida global de 3 anos, com uma margem de não inferioridade de 12%. Desfechos secundários incluíram funcionalidade e complicações pós-operatórias e sobrevida livre de doença em três anos. Os linfonodos sentinelas foram submetidos à exame de congelação intraoperatório para o diagnóstico.

 

Principais resultados

Na amostra analisada, metástases cervicais foram observadas em 24,8% (34 de 137) e 33,6% (46 de 134) dos pacientes nos grupos ND e SLNB, respectivamente. A sobrevida global de três anos no grupo SLNB (87,9%) foi não inferior à do grupo ND. A taxa de sobrevida livre de doença em três anos foi de 78,7% e 81,3% nos grupos SLNB e ND, respectivamente. Além disso, os escores de funcionalidade do pescoço no grupo SLNB foram significativamente melhores do que aqueles no grupo ND.

 

 

Referência do estudo

Hasegawa Y, Tsukahara K, Yoshimoto S, Miura K, Yokoyama J, Hirano S, et al. Neck Dissections Based on Sentinel Lymph Node Navigation Versus Elective Neck Dissections in Early Oral Cancers: A Randomized, Multicenter, and Noninferiority Trial. J Clin Oncol. 2021 Apr 20:JCO2003637. 

 

Disponível em  https://ascopubs.org/doi/full/10.1200/JCO.20.03637

post_paper-pedro (3)

Atualização de importante estudo em câncer de cabeça e pescoço reforça benefício da quimioterapia concomitante no tratamento da doença não-metastática

Em recente publicação, são trazidos os resultados de atualização da maior metanálise que avalia papel da quimioterapia no tratamento do câncer de cabeça e pescoço (MACH-NC). O artigo intitulado “Meta-analysis of chemotherapy in head and neck cancer (MACH-NC): An update on 107 randomized trials and 19,805 patients, on behalf of MACH-NC Group” foi publicado na Radiotherapy and Oncology, revista científica da European Society for Therapeutic Radiology and Oncology (ESTRO), e demonstrou que a quimioterapia concomitante aumentou a sobrevida global em cinco e dez anos em pacientes sem metástase à distância.

Esta meta-análise inclui ensaios clínicos randomizados do período de 1965 a 2017 que avaliaram o papel da adição de quimioterapia a um tratamento local na doença não-metastática. Comparou-se o tratamento curativo locorregional (LRT) com LRT + quimioterapia (QT) concomitante ou adicionando outro tempo de QT para LRT + QT concomitantes. Havia também, entre os estudos incluídos, braços comparando QT de indução + radioterapia com radioterapia + QT concomitante (ou alternada).

Ao analisar o trabalho, o oncologista clínico da Oncoclínicas, Dr. Pedro De Marchi, observa que o principal mérito dos autores foi apresentar resultados que reforçam a importância de a quimioterapia ser utilizada de forma concomitante à radioterapia no tratamento do câncer de cabeça e pescoço locorregional avançado. “Esse trabalho confirma o que temos feito na prática clínica como o padrão de tratamento”, destaca Dr. Pedro, que também é membro diretor do GBCP.

O desfecho primário analisado foi sobrevida global, tendo sido incluídos 101 estudos (16 novos e 11 estudos atualizados), um total de 18.951 pacientes e acompanhamento médio de 6,5 anos. Cerca de 90% dos pacientes apresentavam doença em estadio III ou IV.

A interação entre o efeito do tratamento na sobrevida global e o momento da QT foi estatisticamente significativo, com o benefício sendo limitado à QT concomitante. Vale ressaltar que a eficácia diminuiu com o aumento da idade dos pacientes. “Houve redução de benefício da quimioterapia nas populações de pacientes idosos. Para esses pacientes a utilização desse tipo de tratamento deve ser analisado caso a caso”, explica Dr. Pedro de Marchi. Outro dado trazido no estudo é que a sobrevida global não aumentou com a adição de QT de indução ou QT adjuvante.

 

Referência do estudo

Lacas B, Carmel A, Landais C, Wong SJ, Licitra L, Tobias JS, et al. MACH-NC Collaborative Group. Meta-analysis of chemotherapy in head and neck cancer (MACH-NC): An update on 107 randomized trials and 19,805 patients, on behalf of MACH-NC Group. Radiother Oncol. 2021 Mar;156:281-293.

Disponível em: https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0167-8140(21)00013-X

 

 

post_paper-diego

Meta-análise sugere resultados melhores com radioterapia hiperfracionada e quimioterapia concomitante, mas não avalia toxicidade relacionada ao tratamento

Uma meta-análise robusta, de 116 ensaios clínicos randomizados publicados entre 1980 e 2016 avaliou 16 diferentes modalidades terapêuticas em 29.978 pacientes com câncer de cabeça e pescoço localmente avançado. Embora a conclusão dos autores tenha apontado a radioterapia hiperfracionada com quimioterapia concomitante (HFCRT) como o melhor tratamento na análise de sobrevida global e sobrevida livre de doença, o estudo  Chemotherapy and radiotherapy in locally advanced head and neck cancer: an individual patient data network meta-analysis, publicado na revista científica The Lancet Oncology, não altera a atual conduta clínica, que é de radioterapia (sem hiperfracionamento) com quimioterapia concomitante.

Ao analisar o trabalho, o radio-oncologista Dr. Diego Chaves Rezende Morais, membro fundador do GBCP, destaca que embora seja um estudo interessante por ser uma meta-análise, com uma grande coorte de pacientes, há fragilidades importantes. Dentre elas, o fato de muitos dos ensaios clínicos revisados serem antigos e terem sido realizados com estratégias menos eficazes. “Hoje a radioterapia é mais moderna. Além disso, o perfil da doença também mudou. Saímos do contexto de termos apenas tabagistas e etilistas para um cenário em que há um número crescente de pacientes mais jovens, que nunca fumaram e beberam, cujo tumor é causado pelo vírus HPV,  para os quais o prognóstico é significativamente melhor. Além disso, as populações contempladas não tiveram, na maioria dos casos, estratégias comparáveis, o que é um viés importante, dificultando uma melhor análise dos dados”, explica Dr. Diego, que é também radio-oncologista da Oncoclínicas Recife e do Centro de Oncologia de Caruaru.

Nesta meta-análise, realizada pelos grupos colaborativos MACH-NC e MARCH, a radioterapia hiperfracionada com quimioterapia concomitante (HFCRT) foi classificada como o melhor tratamento quando avaliados os end-points de sobrevida global, sobrevida livre de eventos e sobravida câncer específica.  Dr. Diego Rezende explica que na radioterapia hiperfracionada o paciente realiza duas sessões de radioterapia no mesmo dia com intervalo entre elas de pelo menos 6-8 horas.  “No entanto, dos mais de 29 mil pacientes avaliados no estudo, somente 384 foram tratados com essa estratégia.  Isso limita o resultado e dificulta uma generalização dos resultados obtidos”, ressalta.


Ausência de análise de toxidade

Embora a análise da toxidade para pacientes com câncer de cabeça e pescoço seja relevante, os autores não avaliaram esse aspecto. “O tratamento dos tumores nesta região costuma ser tóxico e o cenário de radioterapia com hiperfracionamento e ainda concomitante à quimioterapia, é potencialmente mais tóxico. A consequência é o maior risco de efeitos colaterais intensos, incluindo mucosite severa, odinofagia importante e perda ponderal significativa”, aponta.

Com o hiperfracionamento, embora sejam diminuídas as doses por fração, são aplicadas duas frações diárias ao invés de apenas uma por dia. No geral, explica Dr. Diego, são dadas mais frações no mesmo período. Ao invés de 35 frações em sete semanas, com o hiperfracionamento a média é de 68 frações em 34 dias.

Os eventos adversos mais comuns no tratamento de câncer de cabeça e pescoço são dor para engolir (odinofagia), perda do paladar, aftas e feridas na boca (mucosite), boca seca (xerostomia) e escurecimento da pele. “Costumo dizer que tudo conspira para o paciente não se alimentar adequadamente. Ele não sente o gosto do alimento, tem dificuldade para mastigar e engolir em virtude das aftas e da falta de saliva e ainda, quando consegue engolir, sente dor. Muitos pacientes perdem muito peso durante o tratamento e alguns precisam de sonda para poder se alimentar. Trata-se de um tratamento que requer uma participação intensa dos médicos envolvidos com envolvimento da equipe multidisciplinar com participação ativa da nutrição, odontologia, enfermagem e fonoaudiologia”.

Os autores da pesquisa esclarecem que o tratamento com hiperfracionamento pode ser difícil de implementar na prática diária, podendo, no entanto, ser adequado para o tratamento de tumores de cabeça e pescoço HPV-negativo localmente avançados ao diagnóstico. Quimioterapia de indução com base em taxanos seguida de forma ideal por quimiorradioterapia concomitante é outra estratégia que tem bons resultados para pacientes selecionados, com bom status de desempenho e comorbidades menores, porém cujos resultados precisam comparados à radioquimioterapia concomitantes a fim de definir a melhor estratégia.

Na opinião do radio-oncologista Dr. Diego Rezende, esses tratamentos devem, idealmente, ser mais investigados em ensaios clínicos randomizados. No entanto, na ausência de estudos randomizados, essas descobertas podem ajudar na tomada de decisão clínica atual, avalia.

 

Referência do estudo:

Petit C, Lacas B, Pignon JP, Le QT, Grégoire V, Grau C, Hackshaw A, et al. Chemotherapy and radiotherapy in locally advanced head and neck cancer: an individual patient data network meta-analysis. Lancet Oncol. 2021 May;22(5):727-736. doi: 10.1016/S1470-2045(21)00076-0. Epub 2021 Apr 13. PMID: 33862002.

Disponível em:

https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(21)00076-0/fulltext

post_paper-willian (1)

Tratamento combinado se mostra eficaz para pacientes com câncer de cabeça e pescoço metastático e recorrente

Estudo publicado na revista científica The Lancet Oncology avalia a eficácia da combinação de cetuximabe, docetaxel e cisplatina em comparação com platina, flurouracil e cetuximabe como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer de cabeça e pescoço de células escamosas, recorrente ou metastático (GORTEC 2014-01 TPExtreme). Multicêntrico, aberto, randomizado e de fase 2, o trabalho reuniu 541 pacientes. A conclusão é que o regime TPEx pode ser uma abordagem de primeira linha para este grupo de pacientes, especialmente para aqueles que podem não ser bons candidatos para o tratamento inicial com pembrolizumabe.

Considerando esses resultados, um artigo de comentário também publicado na The Lancet Oncology por Michael Hwang e Taguy Seiwert, ambos do Departamento de Oncologia da Johns Hopkins University, traz uma análise sobre o atual arsenal utilizado no tratamento para pacientes com câncer de cabeça e pescoço, incluindo o convencional uso de taxanos e a eficácia com as terapias multimodais e imunoterapia. O artigo busca responder à pergunta: are taxanes the future for head and neck cancer? / os taxanos são o futuro para o câncer de cabeça e pescoço?

Em busca da resposta, o primeiro questionamento trazido pelos autores é referente ao regime EXTREME, que ganhou visibilidade após artigo publicado em 2008. Ele consiste em protocolo de seis ciclos de fluorouracil (5-FU) infusional, platina e cetuximabe, seguido de manutenção semanal com cetuximabe. Foi o primeiro estudo em décadas a mostrar um benefício de sobrevida global em câncer de cabeça e pescoço metastático.

No entanto, recorda o oncologista clínico e secretário geral do GBCP, Dr. William Nassib William Junior, várias dúvidas surgiram à época da publicação, incluindo a necessidade de uso de platina e 5-FU como as drogas quimioterápicas básicas a serem combinadas com cetuximabe e a necessidade de se usar cetuximabe combinado à quimioterapia de primeira linha em comparação com a terapia de maneira sequencial (ou seja, imediatamente após a falha do esquema baseado em platina usado na primeira linha). 

“O reflexo disso foi que oncologistas, já desde os primórdios da aprovação do regime EXTREME, substituíram o 5-FU por um taxano ou usavam platina e taxano combinados na primeira linha e reservavam o uso de cetuximabe para a segunda linha. Essas adaptações eram justificadas, em grande parte, pelo potencial de toxicidade e complicações logísticas relacionadas a 5-FU infusional, sendo assim adotadas desde a aprovação inicial do regime EXTREME”, ressalta Dr. William Junior, diretor médico de Oncologia e Hematologia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

 

Com otimismo, do pulmão para Cabeça e Pescoço

Entre as notícias com potencial de serem positivas está o estudo KEYNOTE-407, que mostrou com pacientes com câncer de pulmão de células escamosas uma sinergia entre taxanos e imunoterapia. Este trabalho, observa William Junior, consagrou o uso de quimioimunoterapia com platina, paclitaxel e pembrolizumabe para câncer de pulmão escamoso metastático virgem de tratamento. Segundo a análise do especialista, os dados robustos de ganho de sobrevida sugeriam que essa combinação poderia ter alta atividade não somente para câncer de pulmão, como também para outros cânceres do tipo escamoso (ou mesmo de outras histologias) de origem extrapulmonar, abrindo assim uma janela de oportunidade para pesquisas com câncer de cabeça e pescoço.

 

Um freio no otimismo

Ao contrário do estudo KEYNOTE-407, o  KEYNOTE-048 freia o otimismo em relação ao impacto da interação entre taxanos e imunoterapia, embora não exclua que essa linha de investigação deva ser o futuro dos ensaios clínicos também em câncer de cabeça e pescoço. Dr. William Junior explica que nesse protocolo foi necessário  o uso de platina e 5-FU como quimioterapia básica em combinação com pembrolizumabe. Isso, segundo ele, devido aos dados históricos do estudo EXTREME e às exigências feitas pelas agências regulatórias.

“Muitos oncologistas têm um entusiasmo menor pelo uso da combinação de platina, 5-FU, e pembrolizumabe justamente pelo potencial de toxicidade do 5-FU (e ausência de dados de que essa quimioterapia seria a mais adequada para uso em câncer de cabeça e pescoço). Na realidade, muitos serviços já adotaram o uso de platina, taxano e pembrolizumabe como tratamento padrão para câncer de cabeça e pescoço, em extrapolação aos dados de câncer de pulmão (KEYNOTE-407) e a todos os dados históricos que demonstram que um taxano é tão eficaz quanto (e menos tóxico que) 5-FU para câncer de cabeça e pescoço”, detalha  Dr. William Junior.

Concluindo a análise que faz sobre o comentário publicado pelos pesquisadores da Johns Hopkins na Lancet Oncology, o oncologista clínico William Junior observa que os autores reforçam o conceito, já adotado por muitos e desejado por tantos outros, de que a combinação platina e taxano deveria substituir platina e 5-FU como o regime citotóxico de base a ser usado na prática clínica diária e em estudos futuros de novas combinações para câncer de cabeça e pescoço metastático. 

             

Referências dos estudos

Guigay J, Aupérin A, Fayette J, Saada-Bouzid E, Lafond C, Taberna M, Geoffrois L, Martin L, Capitain O, Cupissol D, Castanie H, Vansteene D, Schafhausen P, Johnson A, Even C, Sire C, Duplomb S, Evrard C, Delord JP, Laguerre B, Zanetta S, Chevassus-Clément C, Fraslin A, Louat F, Sinigaglia L, Keilholz U, Bourhis J, Mesia R; GORTEC; AIO; TTCC, and UniCancer Head and Neck groups. Cetuximab, docetaxel, and cisplatin versus platinum, fluorouracil, and cetuximab as first-line treatment in patients with recurrent or metastatic head and neck squamous-cell carcinoma (GORTEC 2014-01 TPExtreme): a multicentre, open-label, randomised, phase 2 trial. Lancet Oncol. 2021 Apr;22(4):463-475. doi: 10.1016/S1470-2045(20)30755-5. 

Disponível em https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S1470-2045(20)30755-5

 

Hwang M, Seiwert TY. Are taxanes the future for head and neck cancer? Pragmatism in the immunotherapy era. Lancet Oncol. 2021 Apr;22(4):413-415. doi: 10.1016/S1470-2045(21)00121-2. Epub 2021 Mar 5. Erratum in: Lancet Oncol. 2021 Apr;22(4):e134.

Disponível em https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S1470204521001212

post_paper-julia

Trastuzumabe aumenta a sobrevida de pacientes com câncer de glândula salivar com HER-2-positivo

Um estudo com 95 pacientes diagnosticados com câncer de glândula salivar de alto grau (SGC) e perfil HER-2 mostra que o uso de trastuzumabe adjuvante (inibidor de HER-2 após a cirurgia) aumenta exponencialmente o tempo de sobrevida do paciente quando comparado com aqueles que não recebem esta terapia. A conclusão é de pesquisadores do Dana-Farber Cancer Institute, Brigham and Women´s Hospital, em Boston, nos Estados Unidos e BC Center, em Vancouver, no Canadá, no estudo The Benefits of Adjuvant Trastuzumab for HER-2-Positive Salivary Gland Cancers, publicado na revista científica The Oncologist.

Na amostra, obtida retrospectivamente (pacientes tratados de 2002 a 2019), observou-se que aqueles que expressam HER-2, quando tratados com trastuzumabe, viveram em média por 74 meses após o tratamento em primeira linha, enquanto os que não receberam a terapia viveram em média 43 meses. Dos 95 pacientes incluídos, a maioria tinha doenças de alto grau, com carcinoma do ducto salivar como o diagnóstico mais frequente.

Ao comentar o estudo para o GBCP, a oncologista clínica do Hospital de Clínicas de Passo Fundo, Dra. Julia Pastorello, destaca que o diferencial da pesquisa foi demonstrar o provável benefício no tratamento anti HER-2 com trastuzumabe adjuvante associado a quimioterapia baseada em carboplatina e taxano para pacientes com câncer de glândula salivar de alto grau (SGC), com taxa de benefício acima de 50%. “Mesmo com dados retrospectivos, o estudo fornece uma visão detalhada dos resultados do tratamento de um subtipo considerado muito raro de câncer de cabeça e pescoço e para o qual a literatura ainda é escassa nesse contexto”, ressalta Dra. Julia Pastorello.

Os resultados apontam também que 35 pacientes (37% da amostra) apresentaram recorrência (volta da doença). Nove de 17 (53%) pacientes com carcinoma do ducto salivar HER-2 positivo receberam quimiorradiação adjuvante com trastuzumabe. O trabalho evidencia que, além das terapias dirigidas por HER-2, a privação de andrógeno também resultou em benefício clínico além do cenário metastático de primeira linha, com resposta parcial observada já a partir do uso de segunda linha.

 

O que motivou o estudo?
O câncer de glândula salivar (SGC) é um grupo heterogêneo de tumores distintos, extremamente raro, e desafiador em seu perfil histológico e molecular. Somado a isso, tem comportamento clínico variável. O tratamento padrão costuma ser de cirurgia com intenção curativa, seguida por radioterapia adjuvante, dependendo das margens de retirada do tumor, assim como características histológicas e envolvimento linfonodal (número de linfonodos comprometidos).

Porém, o papel da quimioterapia é incerto, tanto no contexto adjuvante quanto no quadro recorrente, incurável ou metastático. A principal motivação dos autores é o fato que, do ponto de vista molecular, novos alvos terapêuticos vêm demonstrando relevância clínica, sendo os mais promissores a terapia de privação de androgênio (ADT) e terapias direcionadas ao oncogene HER-2, que já demonstraram eficácia terapêutica conhecida em câncer de próstata, estômago e mama. Partindo dessa premissa, se investigou a eficácia em câncer de glândula salivar.

Embora os benefícios tenham sido observados neste tipo de câncer, a principal ressalva, afirma Julia, é que cerca de 25% dos pacientes com SGCs de alto grau apresentam recorrências tardias. Portanto, se faz necessário, aponta Dra. Julia Pastorello, acompanhar os pacientes por um tempo superior aos habituais cinco anos.

 

Referência do estudo
Hanna GJ, Bae JE, Lorch JH, Haddad RI, Jo VY, Schoenfeld JD, Margalit DN, Tishler RB, Goguen LA, Annino DJ Jr, Chau NG. The Benefits of Adjuvant Trastuzumab for HER-2-Positive Salivary Gland Cancers. Oncologist. 2020 Jul;25(7):598-608.

Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7356716/pdf/ONCO-25-598.pdf

post_paper_gabriela (2)

Revisão de 108 estudos das últimas três décadas aponta diretrizes para tratar pacientes com câncer de nasofaringe

Uma pesquisa robusta que contempla revisões sistemáticas, meta-análises e ensaios clínicos publicados entre 1990 e 2020 define as diretrizes para se tratar pacientes com carcinoma de nasofaringe, um tipo raro de câncer, de difícil manejo clínico. A pesquisa bibliográfica identificou 108 estudos, sendo que cinco deles com questões clínicas abrangentes sobre radioterapia, sequência de quimioterapia, opções de quimioterapia concomitante (realizada com outra abordagem terapêutica), quimioterapia de indução (tratamento inicial) e quimioterapia adjuvante (após a cirurgia). Realizado por um painel de especialistas da Sociedade Chinesa de Oncologia Clínica (CSCO) e da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), o estudo Chemotherapy in Combination with Radiotherapy for Definitive-Intent Treatment of Stage II-IVA Nasopharyngeal Carcinoma: CSCO and ASCO Guideline foi publicado na revista científica Journal of Clinical Oncology, editada pela ASCO.

Os experts responsáveis por assinar essa diretriz debatem as principais questões a respeito do tratamento definitivo do carcinoma de nasofaringe nos estádios II a IV, fornecendo recomendações baseadas nos principais estudos dos últimos 30 anos com a proposta de auxiliar os oncologistas clínicos e radio-oncologista sobre as melhores evidências quanto ao uso de quimiorradioterapia. Os resultados de interesse incluíram sobrevida, controle de doença à distância e loco-regional e qualidade de vida do paciente.

A oncologista clínica do Hospital Integrado do Câncer da Rede Mater Dei de Saúde, Gabriela Freitas Chaves, ao analisar esse estudo a convite do GBCP, destaca que no trabalho há importantes questões clínicas sobre carcinoma de nasofaringe, a começar pelo papel do regime de radioterapia com intensidade modulada (IMRT). “Se possível, deve ser o de escolha para todos os pacientes, pois quando comparado com as técnicas bidimensional (2D) ou tridimensional (3D), mostrou-se superior em relação a toxicidade e eficácia do tratamento”, destaca Gabriela Chaves.

 

Demais evidências da diretriz
A revisão realizada pela CSCO e ASCO define também que para pacientes T2N0 a quimioterapia não é recomendada de rotina, mas pode ser considerada em casos com características adversas, como grandes volumes de tumor ou alto número de cópias de DNA de Vírus Epstein–Barr (EBV). Para pacientes com T1 ou T2 com N1, a quimioterapia concomitante a radioterapia deve ser oferecida, principalmente para T2N1.

Além disso, para pacientes com estágio III-IVA (exceto T3N0), sugere-se a quimioterapia de indução seguida de quimiorradioterapia concomitante. Em T3N0 indica-se quimiorradioterapia concomitante. Quimioterapia de indução ou adjuvante podem ser discutidas. Para pacientes com estágio III-IVA (exceto T3N0), que não receberam quimioterapia de indução, sugere-se quimioterapia adjuvante após a quimiorradioterapia. A classificação dos tumores, em todos os casos, é feita a partir da 8ª edição do AJCC.

 

Indicações de regimes de quimioterapia
O regime de escolha para quimiorradioterapia consiste em cisplatina semanal ou a cada 21 dias, caso o paciente não apresente contraindicações. Para regimes de indução sugere-se protocolos à base de platina (GP, TPF, PF, PX) de dois a três cliclos, sendo que o início da quimiorradioterapia deve ocorrer em 21-28 dias a partir do primeiro dia do último ciclo de quimioterapia de indução.

Para todos os pacientes recebendo quimioterapia adjuvante, sugere-se: cisplatina; 5-fluorouracil, infusão intravenosa contínua ou infusão contínua intravenosa. Para os pacientes com contraindicação à cisplatina, a carboplatina (AUC 5) pode ser combinada com 5-fluorouracil. Para os pacientes com contraindicação a platinas, o uso de regimes não baseados em platina permanece experimental e não deve ser oferecido rotineiramente fora do contexto de um ensaio clínico.

 

Referência do estudo

Chen YP, Ismaila N, Chua MLK, Colevas AD, Haddad R, Huang SH, Wee JTS, Whitley AC, Yi JL, Yom SS, Chan ATC, Hu CS, Lang JY, Le QT, Lee AWM, Lee N, Lin JC, Ma B, Morgan TJ, Shah J, Sun Y, Ma J. Chemotherapy in Combination With Radiotherapy for Definitive-Intent Treatment of Stage II-IVA Nasopharyngeal Carcinoma: CSCO and ASCO Guideline. J Clin Oncol. 2021 Mar 1;39(7):840-859.

Disponível em https://ascopubs.org/doi/pdf/10.1200/JCO.20.03237

 

post_paper_heliton (2)

Revisão de 19 estudos demonstra eficácia de uso de dispositivo na boca para reduzir complicações durante radioterapia

O uso de stents intraorais (dispositivo inserido na boca) reduz as complicações orais associadas à radioterapia em pacientes com câncer de cabeça e pescoço. A afirmação é de estudo no qual os autores realizaram uma revisão sistemática de dezenove trabalhos com amostra de pacientes que receberam irradiação em áreas como a mandíbula e a maxila. Realizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o estudo Benefits of intraoral stents in patients with head and neck cancer undergoing radiotherapy: Systematic review foi publicado na revista científica Journal for the Sciences & Specialties of the Head and Neck.

As evidências geradas a partir desta revisão estabelecem linhas de conduta clínica que beneficiam os pacientes com câncer de cabeça e pescoço, com indicação de radioterapia, de acordo com a localização específica do tumor a ser irradiado. Em pacientes com câncer na mandíbula ou perto dela, por exemplo, o uso do stent durante a radioterapia está associado a redução da mucosite oral, do trismo (dificuldade de abrir a boca) e da xerostomia (baixa produção de saliva).

“A redução da mucosite oral e do trismo implicam diretamente na redução da dor, melhora da alimentação e da capacidade de higienização da cavidade oral do paciente. Essas variáveis impactam, por sua vez, na redução de complicações secundárias, como infecções”, explica um dos autores da pesquisa, Dr. Héliton Spíndola Antunes, dentista, estomatologista, doutor em Oncologia e pesquisador da Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico do INCA, onde é docente do programa de pós-graduação.

Reduzir xerostomia também impacta positivamente a qualidade de vida do paciente. Além de facilitar o processo de fala, alimentação e a sensação de conforto, atenua os riscos de desenvolvimento de cáries. Outro dado importante, explica Antunes, é que as ferramentas adotadas em radioterapia vêm sendo aperfeiçoadas de forma acelerada nos últimos anos, o que possibilita preservar as estruturas saudáveis, pois as doses utilizadas são cada vez mais precisas e em menor quantidade, refletindo assim em tratamento menos agressivos e melhor qualidade de vida para o paciente.

A evolução da técnica de tratamento bidimensional (2D) para radioterapia conformacional tridimensional (3DCRT) possibilitou quantificar doses em regiões específicas do paciente com precisão. “De forma geral, as toxicidades orais, tanto agudas quanto crônicas são resultado da atuação da irradiação nas estruturas, desta forma, ao reduzir dose nas estruturas sadias adjacentes, esses efeitos são reduzidos”, acrescenta.

Dr. Héliton Antunes afirma também que o estudo tem como principal contribuição a evidência que os stents, que consistem em um dispositivo simples, de baixo custo e de confecção rápida, podem impactar de modo significativo na qualidade de vida do paciente durante e após o tratamento e podem representar a redução das limitações de reabilitação. “Desse modo, esperamos poder estimular os demais pesquisadores a desenvolver outros estudos, envolvendo tais dispositivos, aprofundando assim a investigação sobre os reais benefícios associados a seu uso e produzindo estudos com níveis de evidência mais altos, permitindo o estabelecimento de futuras linhas de conduta ainda mais precisas”, deseja. Sendo comprovado o benefício clínico associado ao uso dos stents, concluí o especialista, espera-se que sua confecção se torne rotina na prática clínica diária dos centros de tratamento de referência em câncer de cavidade oral.

Referência do estudo

Alves LDB, Menezes ACS, Pereira DL, Santos MTC, Antunes HS. Benefits of intraoral stents in patients with head and neck cancer undergoing radiotherapy: Systematic review. Head Neck. 2021 Feb 1.

Disponível em https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/hed.26620

 

post_paper-olivia_v2 (1)

Estudo reforça importância de oferecer suporte nutricional no início do tratamento do câncer de cabeça e pescoço

Um estudo clínico de fase 3 publicado pelo Grupo de Oncologia e Radioterapia de Cabeça e Pescoço (GORTEC) mostra o impacto positivo do suporte nutricional nas taxas de sobrevida em três anos de pacientes com diagnóstico de câncer de cabeça e pescoço de células escamosas localmente avançado. A sobrevida global foi de 81% entre os que receberam a fórmula imunomoduladora. Entre os controles, a taxa foi de 61%. A conclusão é do estudo A double-blind phase III trial of immunomodulating nutritional fórmula during adjuvant chemoradiotherapy in head and neck cancer patients: IMPATOX, publicado na revista científica The American Journal of Clinical Nutrition.

Em formato duplo cego, foram incluídos 180 pacientes com indicação de quimiorradioterapia adjuvante (após a cirurgia), com intenção curativa. Entre novembro de 2009 e junho de 2013, os participantes foram aleatoriamente designados para receber suplementação oral de uma fórmula enriquecida com l-arginina, ácidos graxos ômega-3 e ribonucleicos (braço experimental) ou um isocalórico controle isonitrogênio (braço de controle), por cinco dias, antes de cada um dos três ciclos de cisplatina.

Este estudo é o primeiro ensaio clínico multicêntrico de fase III e randomizado que avalia a administração de imunonutrientes orais durante a quimiorradioterapia em pacientes com câncer de cabeça e pescoço. O desfecho primário (primeiro objetivo do estudo) foi avaliar a eficácia dos imunonutrientes na redução de mucosite grave. Já os objetivos secundários foram avaliar a tolerância, conformidade, atrasos e necessidade de interrupções da terapia, assim como a sobrevida livre de progressão (PFS) e sobrevida global (OS) em um, dois e três anos.

Embora o desfecho primário não tenha apresentado significância estatística (um mês após o término da quimiorradioterapia – CRT não foram observadas diferenças na incidência de mucosite de graus 3-4 entre os grupos avaliados); houve a boa notícia de melhora significativa de sobrevida global em três anos no grupo que recebeu a fórmula imunomoduladora. Enquanto o grupo controle registrou sobrevida livre de progressão de 50% e sobrevida global de 61%, entre os pacientes que receberam imunonutrientes as taxas foram, respectivamente, de 73% e 81%.

 

Perfil nutricional e resposta imunológica

Ao avaliar a pesquisa, a nutricionista oncológica e membro do GBCP, Olívia Galvão De Podestá, destaca que o ponto trazido pelos pesquisadores do GORTEC foi a evidência de que o paciente se beneficia de uma abordagem precoce de suporte nutricional. “Incluir imunonutrientes na dieta do paciente melhora seu estado nutricional e aumenta sua resposta imunológica. O acompanhamento nutricional faz a diferença no cuidado ao paciente oncológico, em especial entre os de Cabeça e Pescoço”, ressalta Olívia.

A nutricionista chama a atenção, por sua vez, para limitações do trabalho. “O resultado relevante foi observado em relação à sobrevivência dos pacientes, mas este não foi o desfecho primário em avaliação. Embora a informação sobre melhora de sobrevida seja relevante, devemos avaliar os resultados com cautela”, ressalta. Como próximo passo, os autores realizam um estudo auxiliar, que visa explorar os fatores relacionados com a aceitação dos pacientes à suplementação oral e potenciais indicações de formas alternativas de suporte nutricional.

 

Referência do estudo

Boisselier P, Kaminsky MC, Thézenas S, Gallocher O, Lavau-Denes S, Garcia-Ramirez M, Alfonsi M, Cupissol D, de Forges H, Janiszewski C, Geoffrois L, Sire C, Senesse P; Head and Neck Oncology and Radiotherapy Group (GORTEC). A double-blind phase III trial of immunomodulating nutritional formula during adjuvant chemoradiotherapy in head and neck cancer patients: IMPATOX. Am J Clin Nutr. 2020 Dec 10;112(6):1523-1531. 

Disponível em https://bit.ly/3u7WC9r

 

post_paper-gilberto_v2

Múltiplos parceiros, sexo oral e relação extraconjugal sem proteção aumentam risco de câncer de garganta

O tabagismo e o etilismo são os principais fatores de risco para desenvolvimento de câncer de orofaringe (garganta), mas é evidente também o impacto do Papilomavírus Humano (HPV), infecção causada pelo sexo sem proteção, no processo de carcinogênese. Estudo publicado na revista científica Cancer, da American Cancer Society, aponta que os principais comportamentos de risco para carcinoma de células escamosas – que representa quase a totalidade dos casos de câncer de orofaringe – são ter múltiplos parceiros, contato ainda jovem com o HPV e fazer sexo oral com início em idade mais jovem e com maior frequência. Os dados são do estudo multicêntrico Timing, number and type of sexual partners associated with risk of oropharyngeal cancer, liderado pela epidemiologista Gypsyamber D’Souza, da divisão de Epidemiologia do Câncer do John Hopkins, nos Estados Unidos.

Com 98 mil novos casos e 48 mil mortes no mundo anuais, segundo o Globocan 2018, o câncer de orofaringe (garganta) é um dos mais prevalentes da região de cabeça e pescoço. Neste estudo de caso-controle, foram incluídos, entre 2013 e 2018, um total de 508 participantes, sendo 163 pacientes e 345 controles, com o objetivo de investigar novos fatores de risco (comportamento de iniciação sexual, intensidade de exposição e dinâmica de relacionamento), assim como marcadores sorológicos e o quanto eles estão relacionados com a probabilidade de desenvolvimento de câncer de orofaringe associado com infecção pelo HPV, em especial do tipo 16.

Após a aplicação de questionário de comportamento sexual, o estudo mostra que os participantes que tiveram dez ou mais parceiros de sexo oral ao longo da vida tem 4,3 vezes mais probabilidade de desenvolver câncer de orofaringe. Ter a experiência de primeiro sexo oral antes dos 20 anos aumenta o risco em 1,8 vezes e a intensidade também é fator de risco.

Relações extraconjugais apresentaram probabilidade 1,6 vezes maior. Com base nesses números, os autores concluem que embora já fosse sabido que o número de parceiros de sexo oral já fosse conhecido como fator de risco para desenvolvimento de câncer de orofaringe, o tempo e a frequência de sexo oral agora podem ser vistos como novos fatores de risco independentes.

Na avaliação do médico oncologista Dr. Gilberto de Castro Junior, vice-presidente do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP), o principal mérito do estudo foi consolidar a associação entre HPV e câncer de orofaringe, e que quanto maior a exposição de risco, maior a chance de desenvolver este tumor, ou seja, prevenção através de sexo seguro é fundamental. Independentemente disso, ressalta Dr. Castro Junior, não fumar continua sendo a medida mais eficaz para prevenir o câncer de orofaringe, assim como de câncer de pulmão, boca, esôfago, bexiga, pâncreas, dentre outros.

Além de sexo seguro, vacinar meninos e meninas

Assim como a prática de sexo seguro é importante para reduzir o risco de infecção pelo HPV, outra medida eficaz é a vacina, que está disponível gratuitamente na rede pública de saúde. A vacina quadrivalente protege contra os HPVs 6, 11, 16 e 18; sendo estes dois últimos os mais comumente associados ao câncer.

Para ser mais eficaz, a vacina deve ser administrada antes do início da vida sexual. Por isso, ela é indicada para meninas entre 9 e 14 anos e meninos entre 11 e 14 anos, com recomendação de duas doses, com intervalos de seis meses entre elas. Também é indicada para grupos especiais: homens e mulheres de 9 a 26 anos portadores do vírus HIV e pessoas transplantadas de órgãos sólidos, medula óssea ou pacientes oncológicos na faixa etária de 9 a 26 anos. Para esses grupos são recomendadas três doses, sendo que a segunda dose é feita após dois meses da primeira e a terceira dose após seis meses da primeira dose.

 

Referência do estudo

Drake VE, Fakhry C, Windon MJ, Stewart CM, Akst L, Hillel A, Chien W, Ha P, Miles B, Gourin CG, Mandal R, Mydlarz WK, Rooper L, Troy T, Yavvari S, Waterboer T, Brenner N, Eisele DW, D’Souza G. Timing, number, and type of sexual partners associated with risk of oropharyngeal cancer. Cancer. 2021 Jan 11.

Disponível em https://acsjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/cncr.33346

palavra_kowalski

Diagnóstico prévio de câncer de cabeça e pescoço aumenta risco de internação por COVID-19

Na amostra, a idade média dos pacientes foi de 70 anos, com 38% deles com 75 anos ou mais. Mais de um terço (34%) residiam em instituições de longa permanência. Treze (41%) tinham câncer ativo, com 6 (19%) em terapia contra o câncer no prazo de até quatro semanas após o diagnóstico de COVID-19. Os principais sintomas relatados foram surgimento ou piora de quadro de tosse e fadiga. Para mais de 30% dos participantes da coorte foi necessário realizar mais de um teste de SARS-CoV-2 antes de confirmar o resultado positivo.

Risco maior em quem não tem câncer ativo

Na avaliação do cirurgião oncológico e diretor científico do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP), Dr. Luiz Paulo Kowalski, o achado mais surpreendente foi que o risco de hospitalização, nesta coorte, se mostrou mais elevado mesmo em pacientes já previamente tratados e sem doença em atividade. “Provavelmente esteja associado a idade elevada e comorbidades frequentemente observadas nos pacientes sobreviventes”, observa Dr. Kowalski, Cirurgião Oncológico do A.C.Camargo Cancer Center e Professor Titular de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Intuitivamente, destaca Dr. Kowalski, era esperado um maior risco em pacientes em tratamento. O dado inversamente a isso sinaliza que os pacientes com doença em atividade são protegidos pelos protocolos de tratamento. “Por exemplo, não se opera em menos de três a quatro semanas um paciente com COVID-19. Operar após esse período não eleva o risco”, analisa. Dr. Kowalski observa também que muitos dos pacientes já fora de tratamento, com idade mais avançada, residindo em lares para idosos e não em suas próprias casas, tiveram risco maior. Isso pode, segundo ele, sugerir que manter o idoso com câncer em casa, e protegido, poderia reduzir risco.

Os dados mostram também que sete (22%) morreram (sendo que um estava em tratamento contra o câncer e seis eram sobreviventes). Esses dados, avalia Dr. Kowalski, também reforçam que os pacientes com câncer de cabeça e pescoço constituem uma população de muito alto risco, maior, inclusive, que o risco geral de pacientes com outros tipos de câncer. Esses fatores, avalia o especialista, devem estar relacionados a idade, fragilidade, comorbidades e sequelas prévias em via aerodigestiva superior (boca, laringe e faringe).

Poucos pacientes e outras limitações

Embora seja uma avaliação sistemática e feita por um consórcio acadêmico, os dados são de uma pequena série de pacientes. Traz um alerta sobre o tema que, na análise do Dr. Kowalski, necessita ser confirmado em uma coorte maior de pacientes em estudo multi-institucional internacional.

A boa notícia é que estudos dessa natureza se encontram em andamento e os resultados devem ser conhecidos brevemente. Enquanto isso, afirma o diretor científico do GBCP, esses dados preliminares, ao mostrar que é maior o risco de complicações pela COVID-19 em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, chamam a atenção para a relevância desse grupo receber orientação e adotar medidas rigorosas de proteção.

Referência do estudo

Hanna GJ, Rettig EM, Park JC, Varvares MA, Lorch JH, Margalit DN, Schoenfeld JD, Tishler RB, Goguen LA, Annino DJ Jr, Haddad RI, Uppaluri R. Hospitalization rates and 30-day all-cause mortality among head and neck cancer patients and survivors with COVID-19. Oral Oncol. 2021 Jan;112:105087.

Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.oraloncology.2020.105087

 

Powered by themekiller.com anime4online.com animextoon.com apk4phone.com