O papel estratégico da radiologia na jornada do paciente com câncer de cabeça e pescoço
- gbcpcomunicacao

- 29 de dez. de 2025
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A exemplo das demais especialidades e profissionais de saúde, a radiologia também tem papel importante na jornada do paciente oncológico. Além do câncer de cabeça e pescoço também estamos presentes em várias etapas da jornada de pacientes acometidos por outras doenças oncológicas, como os cânceres de mama, próstata, pulmão, gastrointestinais e muitas outras.

A médica radiologista Dra. Cristiane Abbehusen explica como exames de imagem orientam decisões terapêuticas do diagnóstico ao acompanhamento pós-tratamento. Com 25 anos de experiência na área, a especialista é chefe do Serviço de Bioimagem do Hospital Santo Isabel (BA), com subespecilização em neurorradiologia e imagem de cabeça e pescoço
Qual o papel da radiologia na jornada do paciente com câncer de cabeça e pescoço?
A exemplo das demais especialidades e profissionais de saúde, a radiologia também tem papel importante na jornada do paciente oncológico. Além do câncer de cabeça e pescoço também estamos presentes em várias etapas da jornada de pacientes acometidos por outras doenças oncológicas, como os cânceres de mama, próstata, pulmão, gastrointestinais e muitas outras. Em relação ao câncer de cabeça e pescoço, o médico radiologista contribui, principalmente, no diagnóstico, estadiamento e acompanhamento pós-tratamento. Apenas para citar um exemplo, no hospital onde eu trabalho, participo da reunião multidisciplinar quinzenal dedicada especificamente a apresentar e discutir casos desse tipo de câncer.
Além do médico radiologista, que outras especialidades participam dessa reunião?
Também participam o oncologista clínico, o cirurgião, o radioterapeuta e profissionais da equipe multidisciplinar, entre eles, o odontologista que garante a saúde bucal do paciente antes, durante e depois do tratamento.
Como é a atuação do médico radiologista no diagnóstico?
Por meio de exames de imagem, como tomografia e ressonância magnética, identificamos a presença do tumor, seu tamanho e localização. Essas informações não podem ser obtidas pelo exame clínico do paciente. São dados iniciais muito importantes para guiar o tratamento do paciente que, no caso do câncer de cabeça e pescoço, pode ser realizado com cirurgia, radioterapia e quimioterapia, de maneira combinada ou individual.
O que é estadiamento?
O radiologista fornece por meio de exames de imagem informações cruciais para essa etapa. O estadiamento vem depois do diagnóstico e consiste na classificação do tumor, de acordo com sistema padronizado chamado TNM, que funciona assim:
T (Tumor): descrevemos o tamanho do tumor primário e verificamos se ele invadiu estruturas próximas.
N (Nódulos / linfonodos): indicamos se o câncer se espalhou para os gânglios linfáticos na região do pescoço.
M (Metástase): informamos se doença disseminou para partes distantes, como pulmões, fígado ou ossos.
Dessa forma, o cirurgião ou o oncologista clínico, vai saber o que está acontecendo com o tumor, por baixo da superfície da mucosa. Ele avalia cada um desses três componentes e estadia clinicamente o câncer nos estágios 0 a IV. Índices mais baixos indicam câncer localizado e os mais altos, doença avançada.
Como o radiologista contribui com o estadiamento?
Os exames de imagem fornecem todos os dados do estadiamento TNM. Podemos afirmar que com base na imagem é possível decidir se o tratamento será cirúrgico ou se o tumor é irressecável e, nesse caso, se as melhores alternativas são a quimioterapia e/ou radioterapia.
No caso de cirurgia, a imagem também ajuda o médico a decidir a possibilidade de utilizar ou não a cirurgia robótica. Portanto a parceria do médico radiologista com o cirurgião e/ou oncologista é estreita. Há muita troca de informação para chegar a um consenso sobre cada caso. A qualidade técnica do exame é tão importante quanto o conhecimento e experiência do radiologista.
A tecnologia tem evoluído no sentido de elevar a qualidade técnica dos exames?
Houve muita evolução tecnológica em termos dos equipamentos que utilizamos para os exames de imagem. No passado, os equipamentos de tomografia possuíam apenas 4 a 8 canais.
Atualmente, a maioria dos serviços conta com equipamentos de 128 e 256 canais, que proporcionam imagens de altíssima resolução. Na ressonância magnética, equipamentos modernos nos permitem visualizar detalhes, por exemplo, de músculos da parede da laringe e, dessa forma, verificar se há invasão de estruturas. A tecnologia ampliou nossa capacidade diagnóstica. Conseguimos, inclusive, reconstruir imagens tridimensionais e visualizá-las em 360 graus.
E a atuação do radiologista no acompanhamento pós-tratamento?
Nós atuamos conforme a programação do oncologista, que é estruturada de acordo com cada paciente. O acompanhamento pós-tratamento que tem como objetivo verificar a resposta terapêutica pode ser realizado a cada três meses, a cada seis meses ou a cada 12 meses. Tudo vai depender da evolução do paciente, se há recidiva, remissão parcial ou total do câncer. Os exames de imagem acompanham a história terapêutica.
Quais os exames de imagem mais realizados em casos de câncer de cabeça e pescoço?
Os exames de imagem variam de acordo com a localização do tumor. Para a tireoide, o exame mais utilizado é a ultrassonografia. Nos demais casos de câncer de cabeça e pescoço, geralmente, o exame inicial é a tomografia, que oferece excelente resolução, sendo ideal para realizar todo o estadiamento TNM.
A ressonância magnética tem indicações específicas e costuma ser solicitada como complemento à tomografia. Ela desempenha papel importante em tumores de orofaringe, pois atualmente é frequente a realização de cirurgia robótica nessa região e a ressonância consegue avaliar bem a invasão muscular. A ressonância também é utilizada para tumores da cavidade oral. Na nasofaringe, região próxima à cavidade craniana, a ressonância é recomendada para avaliar possível invasão de nervos e estruturas adjacentes.
A radiação dos exames de imagem é segura para os pacientes?
É segura, especialmente considerando a evolução tecnológica dos últimos anos. Com os avanços técnicos, as imagens tornaram-se muito mais rápidas e a dose de radiação foi significativamente reduzida. Em relação aos exames de cabeça e pescoço, a maioria é realizada por tomografia, que é baseada em raios-X. Mas temos protocolos de tomografia de baixa dose de radiação. A ressonância não usa radiação, mas radiofrequência e campo magnético, e a ultrassonografia, ondas sonoras de alta frequência.
Sobre o laudo dos exames de imagem de câncer de cabeça e pescoço, quais são suas recomendações?
O ideal é construir laudos estruturados com base no estadiamento TNM. O laudo deve descrever detalhadamente a extensão tumoral, informando se há invasão muscular e comprometimento de áreas adjacentes.
Eu gosto de incorporar imagens-chave com marcações visuais, como setas apontando achados relevantes e facilitando a compreensão dos dados. Além de seguir o TNM, o laudo precisa responder às questões clínicas específicas do médico solicitante. Para isso, precisamos incluir informações que, embora não façam parte do estadiamento padrão, são determinantes para a escolha terapêutica. Por exemplo, o comprometimento de determinadas cartilagens na laringe que pode contraindicar certos tipos de cirurgia.







