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Como amenizar os efeitos da xerostomia

O paciente com câncer de cabeça e pescoço submetido a tratamento radioterápico, caso a irradiação atinja as glândulas salivares, vai conviver pelo resto da vida com um efeito adverso do tratamento denominado xerostomia. Conversamos sobre o tema com o cirurgião dentista estomatologista Luiz Alcino Gueiros, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).



Com isso, ele passa a lidar com a sensação de boca seca, mesmo estando hidratado. Isso acontece porque as glândulas salivares diminuem ou deixam de produzir saliva. Além da sensação de boca seca, diversas outras alterações orais ocorrem como consequência da redução de fluxo salivar.


No manejo desse paciente desde o início do tratamento até seu seguimento, no pós-tratamento, entra em cena na equipe multidisciplinar, o cirurgião dentista especializado em estomatologia. Conversamos sobre o tema com o cirurgião dentista estomatologista Luiz Alcino Gueiros, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

 

Confira a entrevista.


O que é xerostomia?

A xerostomia é um efeito adverso frequente no tratamento radioterápico em pacientes com câncer de cabeça e pescoço, que decorre  da irradiação das glândulas salivares. É caracterizada pela sensação de boca seca e, frequentemente, está associada a diminuição da produção de saliva, sendo um sintoma dissociado da sede. Mesmo estando bem hidratado, a boca se mantem ressecada porque as glândulas salivares diminuem sua função ou deixam de produzir saliva.

 

Ao concluir o tratamento radioterápico, o paciente pode recuperar o fluxo salivar e deixar de sentir a boca seca?

Infelizmente ainda não temos alternativas de tratamento que reestabeleçam o fluxo salivar de antes do tratamento e, consequentemente, mantem-se a xerostomia por longo tempo. No entanto, há estratégias para amenizar esse sintoma com o passar do tempo e reduzir seus impactos. O manejo do paciente também tem evoluído. O importante é saber que atualmente é possível, com estratégias adequadas, manter um padrão de saúde bucal satisfatório após a radioterapia em região de cabeça e pescoço.

 

Como tem sido a evolução do tratamento radioterápico para poupar as glândulas salivares?

No passado, o planejamento de radioterapia era feito com base em radiografias convencionais e não era possível avaliar a dose nas estruturas de interesse.


Comparado a hoje era um método bem arcaico, em que o campo a ser irradiado acabava envolvendo uma maior área anatômica próxima ao tumor. Com o avanço, o planejamento foi baseado em recursos de tomografia computadorizada, que já nos forneceu imagens de melhor qualidade e, consequentemente, uma melhor avaliação e definição do campo a ser irradiado. Com isso, foi sendo possível poupar áreas próximas ao tumor que não necessitam ser irradiadas.


Atualmente, o planejamento é feito com a Radioterapia de Intensidade Modulada (IMRT), que permite realizar um tratamento altamente assertivo. Com essa tecnologia é possível direcionar os feixes de radioterapia, mais especificamente para o tumor, poupando ainda mais regiões adjacentes que não necessitam de tratamento. Mas, apesar do avanço e dos benefícios às glândulas salivares, percebe-se que estes avanços não são suficientes para evitar totalmente a xerostomia. O uso da radioterapia é necessário e deve ser feito sempre que possível, porém  não é capaz de prevenir por completo esta sequela.

 

E quais são as estratégias de tratamento para que o paciente consiga conviver com a xerostomia?

O cuidado em relação a xerostomia inicia-se com a prevenção, paralelamente ao início do tratamento radioterápico, quando o paciente já começa a receber medicamentos que estimulam o fluxo salivar. Nesse sentido há estudos, por exemplo, com um medicamento chamado betanecol, cujo uso profilático durante a radioterapia apresentou resultados promissores.


Outro recurso que tem mostrado alguns resultados na prevenção da xerostomia durante a radioterapia é a  acupuntura. Também há o uso do laser, que é uma alternativa que tem aparecido, com menos evidências que a acupuntura, mas como uma possibilidade de tratamento que pode ser interessante, mas, ainda precisamos de mais estudos. Além disso, em algumas situações podemos usar um dispositivo intraoral confeccionado sob medida para cada paciente, que mantém a boca aberta durante o tratamento e afasta a região das glândulas salivares da área que vai ser irradiada.


Ao término da radioterapia, contamos com outros recursos para tratar a xerostomia, como uso de saliva artificial, com objetivo de manter a boca mais úmida. Pacientes que não usam prótese dentária móvel, podem mascar chicletes sem açúcar, que também estimulam a produção de saliva. As alternativas usadas para prevenção ainda não foram validadas para tratamento da xerostomia pós-radioterapia.


Por sinal, é importante lembrar que existem diretrizes muito bem elaboradas, com base em evidências científicas, a respeito do tratamento da xerostomia em pacientes oncológicos, publicadas pela American Society of Clinical Oncology (ASCO) e a Multinational Associations of Supportive Care in Cancer/Internation Society of Oral Oncology (MASC/ISOO) no Journal of Clinical Oncology (https://ascopubs.org/doi/full/10.1200/JCO.21.01208). São guidelines que valem a pena conhecer.

 

Qual o papel do dentista no tratamento do paciente acometido por câncer de cabeça e pescoço?

O cirurgião dentista especializado em estomatologia é o profissional que tem o treinamento adequado para acompanhar o paciente oncológico acometido por câncer de cabeça e pescoço, especialmente, na região da boca. O ideal é que o paciente passe pela avaliação do cirurgião dentista especializado antes do inicio do tratamento radioterápico. Recebemos o paciente para realizar o tratamento dentário, que visa remover focos de infecção; ajustar dentes que, eventualmente, estiverem quebrados; remover aparelho ortodôntico; e, principalmente, educar o paciente para manter um novo padrão de autocuidado bucal após a radioterapia. Assim, preparamos o paciente para a radioterapia.


Durante o tratamento, acompanhamos o paciente, fazendo a prevenção e tratamento da mucosite oral, um efeito adverso agudo importante e impactante. Há casos em que o paciente precisa suspender a radioterapia para tratar a mucosite e só depois da melhora retomar o mesmo. Ao término do tratamento, mantemos um seguimento próximo e frequente do paciente. Vale lembrar que os pacientes com xerostomia intensa, em particular aqueles que receberam radioterapia em região de cabeça e pescoço, apresentam alto risco de cárie dentária e precisam de acompanhamento próximo. Nesses casos, a visita ao dentista deve idealmente acontecer a cada três meses.

 

Como é o acesso no Brasil ao serviço de odontologia oncológica?

No Brasil, os serviços de odontologia oncológica têm se estabelecido cada vez mais, sendo uma realidade nos centros de referência de oncologia. As instituições perceberam essa necessidade, viram como isso muda a conduta e a rotina clínica dos pacientes, com importantes benefícios. Percebemos que esses serviços estão presentes em centros públicos e privados, o que garante uma melhor assistência aos pacientes.

 





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