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Diagnóstico de câncer de tireoide em mulheres jovens aumenta no Brasil e no mundo.

  • Foto do escritor: gbcpcomunicacao
    gbcpcomunicacao
  • 20 de mai.
  • 4 min de leitura

Cada vez mais aumenta o diagnóstico de câncer de tireoide em adolescentes e jovens adultos, principalmente em mulheres.


Dra. Aline Lauda

Paralelamente, as taxas de mortalidade por essa doença permanecem muito baixas e estáveis. Isso foi o que mostrou o estudo Thyroid cancer in adolescents and young adults: a population-based study in 185 countries worldwide, publicado o final do ao passado na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology.

 

Para entender o porquê desse cenário, os pesquisadores levantaram dados de 185 países. O estudo apontou que a principal explicação para esse cenário está no sobrediagnóstico,  a detecção de tumores que não causariam sintomas nem risco de vida ao paciente. A oncologista Dra. Aline Lauda, da diretoria do GBCP - Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço, faz um paralelo entre o cenário que a pesquisa mostra e o contexto brasileiro.

 

Segundo ela, sobre o câncer de tireoide, o Brasil acompanha o cenário global. “O câncer de tireoide é um dos tumores mais frequentes entre as mulheres no Brasil. A doença está  entre os cinco tipos mais diagnosticados no sexo feminino e segue  a tendência mundial de mortalidade muito baixa”, afirma.

 

No Brasil, o sobrediagnóstico também é apontado como o principal fator desse aumento dos casos de câncer entre mulheres jovens, informa Dra. Aline. Ela ressalta que é muito importante entender que o sobrediagnóstico não é um erro.  “É o diagnóstico de um tumor tão pequenininho que ele não vai causar nada para o paciente, nem sintoma nem morte", explica a especialista. Em geral, são nódulos pequenos de tireoide que são encontrados acidentalmente durante um exame de imagem de rotina ou que são solicitados pelo médico por outra razão.

 

Desigualdade no diagnóstico do câncer de tireoide

 

O estudo global identificou uma correlação direta entre a taxa de incidência do câncer de tireoide e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos países. Em resumo: quanto maior o acesso a exames de imagem e a consultas médicas de rotina, mais casos são detectados, independentemente de qualquer aumento real na doença.

 

No Brasil, esse fenômeno se reproduz nas desigualdades regionais. "Regiões e grupos com mais acesso ao ultrassom, a consultas de rotina com endocrinologista ou ginecologista, têm mais diagnósticos de câncer de tireoide", aponta a médica.

 

Ela lembra um estudo publicado na revista Endocrine Practice em outubro de 2023, analisando dados do estado de São Paulo entre 2001 e 2017, que ilustra bem essa distorção: a incidência de câncer de tireoide foi significativamente maior em São Paulo (SP) do que em Barretos (SP), uma cidade no interior do estado paulista e com menos recursos do que a capital. A mortalidade, porém, foi baixa nas duas regiões. Isso revela dois lados do problema brasileiro. De um lado, há o risco de sobrediagnóstico em regiões e grupos com maior acesso à saúde. De outro, há o subdiagnóstico em regiões com acesso limitado, onde tumores que precisariam ser tratados podem passar despercebidos.

 

O impacto na população jovem

 

O diagnóstico de câncer em uma fase de intensa atividade social, profissional e emocional traz consequências que vão além do tratamento de tireoide. Ansiedade, medo de recorrência e a perspectiva de cirurgias muitas vezes desnecessárias estão entre os principais danos do sobrediagnóstico. "O tratamento do câncer de tireoide, a depender da terapia utilizada, pode resultar em cicatriz, alteração de voz, hipotireoidismo",  enumera a especialista.

 

No contexto brasileiro, há ainda uma dimensão econômica importante. "Em um país com recursos limitados na saúde, temos que pensar também no custo. Um aumento de tratamentos desnecessários representa um ônus para o sistema de saúde", observa a médica.

 

Tratamento de câncer de tireoide no Brasil

 

Historicamente, o tratamento padrão para o câncer de tireoide era a tireoidectomia total, ou seja, a remoção completa da glândula. Isso está mudando gradativamente.

 

Nos últimos anos, já se adota mundialmente, e também no Brasil, tireoidectomias parciais (não retirar a tireoide toda) e muitas vezes só o acompanhamento, a chamada vigilância ativa, informa a Dra. Aline. Ela reconhece, no entanto, que há resistência: "Às vezes o paciente tem dificuldade em lidar com a vigilância e quer realmente operar".

 

Além da cirurgia menos extensa, outra tendência é a redução do uso de iodo radioativo no pós-operatório, antes indicado com mais frequência do que se recomenda hoje para tumores de baixo risco.

 

Quando é recomendado investigar

 

A mensagem central da Dra. Aline não é "não investigue a tireoide", mas sim investigar de maneira criteriosa, quando há razão clínica para isso. Segundo a especialista, merecem investigação:

 

  •      Nódulos palpáveis no pescoço em crescimento.

  •     Rouquidão persistente.

  • Caroço na lateral do pescoço que persista por mais de três semanas.

  • História familiar positiva para câncer de tireoide, principalmente o subtipo carcinoma medular

  • Nódulos com características suspeitas de agressividade ao ultrassom

 

Como enfrentar o problema do sobrediagnóstico?

 

Dra. Aline aponta três medidas essenciais para enfrentar o sobrediagnóstico no Brasil:

 

  1.  Evitar o rastreamento indiscriminado.

  2. Puncionar apenas nódulos com características suspeitas.

  3. Melhorar o acesso e os registros de câncer no Brasil e, com base  nesses dados, estruturar uma estratégia de conter excessos em regiões com mais recursos e ampliar o acesso onde ele é insuficiente.


 

Para saber mais sobre o estudo global, acesse: 


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