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Letramento em saúde: um passo muito além da informação

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    gbcpcomunicacao
  • há 25 minutos
  • 8 min de leitura

O conceito letramento em saúde é muito mais amplo do que a maioria pensa. Ele não se restringe ao paciente, mas avança para o espaço das instituições e dos profissionais de saúde. São esses últimos os responsáveis em prover uma interação condizente com o letramento em saúde de seu público


Dra. Raquel Ajub Moyses

Mas a tarefa vale muito a pena e traz benefícios para todo o sistema de saúde. Leia a entrevista com a Dra. Raquel Ajub Moyses,  pesquisadora no Hospital das Clínicas da FMUSP e fundadora da startup de letramento em saúde, Curar Saúde.

 


 No Simpósio do GBCP deste ano (14 de março de 2026), sua palestra “Qual o impacto do letramento em saúde com foco em câncer de cabeça e pescoço?” teve grande interesse da plateia. O que é letramento em saúde?

O conceito de letramento em saúde diz respeito, por um lado, à capacidade da pessoa de encontrar, compreender e usar informações e serviços de saúde para tomar decisões em prol de seu bem-estar e qualidade de vida. No universo dessas decisões estão desde fazer ou não a matrícula em uma academia, escolhendo o tipo de atividade física que deseja praticar até em caso de um tratamento de câncer, decidir em conjunto com o médico entre as alternativas de tratamentos disponíveis. O letramento em saúde também inclui a responsabilidade das organizações e dos profissionais de saúde de tornar as informações e serviços compreensíveis e acessíveis. É o que chamamos de letramento em saúde organizacional.

 

Quem são os atores do letramento em saúde organizacional e suas principais responsabilidades?

Nesse universo estão as fontes pagadoras da saúde formadas, principalmente, pelos setores público e privado, responsáveis por financiar o atendimento à população. Estamos falando de SUS, saúde suplementar e profissionais de saúde. Todos eles precisam se adaptar ao nível de letramento em saúde dos pacientes que atendem, garantindo que todas as informações sejam compreendidas.

 

O letramento em saúde é um problema de educação formal?

Em parte, podemos dizer que sim. Há uma certa associação da educação formal com uma maior capacidade de entendimento, mas essa condição não é determinante para o letramento em saúde. Vemos pessoas que mal sabem escrever o próprio nome com ótimo letramento em saúde. Elas sabem onde buscar informação confiável, como navegar no sistema, como cuidar da família. E, ao mesmo tempo, pessoas com pós-graduação no exterior acreditando em conversas de charlatães e conceitos que negam a ciência. Contexto, comportamento e aprendizado comunitário pesam muito. Por exemplo,  o agente comunitário de saúde que orienta uma mãe ou o familiar que vivencia uma doença e aprende, tornando-se um motor de educação da família. Tudo isso constrói letramento.

 

E por que promover o letramento em saúde é importante?

Não faltam motivos que justifiquem a importância da promoção do letramento em saúde. Antes de tudo, é uma questão de equidade, uma vez que o baixo letramento em saúde é uma das maiores barreiras para se alcançar uma distribuição mais justa da saúde entre as pessoas. Além disso, ele melhora desfechos clínicos e torna os sistemas de saúde muito mais eficientes. O impacto financeiro é absurdo: estamos falando de bilhões, centenas de bilhões de dólares por ano, talvez trilhões no mundo.

 

Do ponto de vista das instituições, reduz o risco reputacional e de processos judiciais ao garantir que o paciente compreenda de verdade as informações e possa dar um consentimento informado válido. E quando olhamos para o cenário da informação na sociedade, o letramento em saúde é um antídoto direto contra a desinformação. No contexto do avanço da ciência, populações com menor letramento têm menos disposição para participar de ensaios clínicos, o que prejudica diretamente a evolução  da pesquisa.

 

No fim das contas, todo mundo ganha com o letramento em saúde. Só não ganha o charlatanismo. Só não ganha o negacionismo.

 

Você pode dar um exemplo prático cotidiano sobre como a falta de letramento pode prejudicar a saúde?

A falta de letramento em saúde pode prejudicar, por exemplo, a adesão a tratamentos e, consequentemente, o desfecho clínico. Um exemplo clássico são os antibióticos. Sabemos que um número significativo de pacientes não completam o ciclo de tratamento determinado pelo médico. Parte desses pacientes interrompe o tratamento porque melhora antes do período prescrito na receita e acha que não há necessidade de continuar. O paciente que toma essa atitude não sabe que está colocando em risco sua saúde e a de outras pessoas. Ao interromper o antibiótico antes do período determinado pelo médico, bactérias podem sobreviver e se multiplicar, causando infecção e a resistência bacteriana. Dessa forma, as bactérias sobreviventes tornam-se mais fortes, dificultando a eficiência de tratamentos futuros. Precisamos entender que a responsabilidade de explicar essas questões para o paciente é do médico. O paciente precisa compreender o porquê ele não pode interromper o antibiótico, mesmo que haja melhora no meio do ciclo de tratamento.

 

Em que tipo de estratégias as organizações precisam investir para melhorar o nível de letramento em saúde?

As possibilidades são muitas, mas vou elencar alguns exemplos:

 

  • Melhorar a comunicação, tornando as informações mais claras e acessíveis para as pessoas atendidas.

  • Treinar profissionais e canais de saúde, com objetivo de capacitar quem está na linha de frente do atendimento para comunicar e educar melhor os pacientes.

  • Mapear as dificuldades do público,  descobrir quais são as lacunas de compreensão das pessoas atendidas, para agir de forma mais direcionada.

  •   Melhorar a navegação nas instituições, facilitando o acesso e a compreensão dos serviços disponíveis.

  • Engajar os pacientes no próprio cuidado, tornando-os menos passivos e promovendo sua autoeficácia, que é a sensação de que ele é capaz de cuidar da própria saúde ou da saúde da família. Considero esse um dos pontos centrais, porque um paciente que se sente incapaz tende a paralisar.

  • Investir em ciência comportamental uma vez que não é suficiente transmitir conhecimento; é preciso promover treinamento para que a pessoa seja capaz de agir e tomar decisões, mesmo que os benefícios sejam no longo prazo.

     

E quais são as recomendações para o médico no atendimento em consultório?

Simplificar a linguagem é fundamental, mesmo que o paciente seja alguém com alta escolaridade. Informações apresentadas de maneira simples são interpretadas como mais confiáveis. Também é preciso garantir que o paciente saia da consulta com respostas claras a estas três perguntas: o que eu tenho, o que eu preciso fazer e por que eu preciso fazer isso. Se o paciente não fizer essas perguntas por conta própria, cabe ao profissional de saúde se certificar de que essas respostas foram dadas e compreendidas ao longo da consulta.

 

Para isso, existem algumas estratégias interessantes. Uma das principais é a metodologia Teach-back, que consiste em, após explicar algo ao paciente, pedir que ele repita com as próprias palavras, mas de uma forma que não o constranja. Em vez de perguntar "você entendeu?", o profissional diz: “Deixa eu ver se fiz um bom trabalho. Explica com as suas palavras o que eu acabei de dizer." Assim, a responsabilidade pela clareza da explicação recai sobre o profissional, e não sobre o paciente. Outro recurso é o Chunk and Check (fragmentar e verificar),  uma técnica de comunicação, comum na área da saúde e da educação. Ela consiste em dividir informações complexas em partes menores ("chunks") e verificar o entendimento ("check") após cada segmento. A ideia é dividir o conteúdo para facilitar a memorização e o entendimento.

 

E quando estamos diante de doenças muito complexas, como um câncer de cabeça e pescoço, qual o impacto da falta de letramento em saúde?

O câncer de cabeça e pescoço é uma doença que, por sua própria natureza, já impõe ao paciente muitos desafios. É uma jornada complexa que pode trazer transformações funcionais profundas. Quando a isso se soma um baixo letramento em saúde, o sofrimento se intensifica. E a história pode começar antes mesmo do diagnóstico, em um paciente tabagista, que consome álcool e que não reconhece uma lesão suspeita e não procura um médico. São pacientes que acabam chegando ao sistema de saúde já com a doença em fase avançada.

 

E as consequências continuam nas próximas etapas. A adesão ao tratamento radioterápico, por exemplo, é um indicador crítico de sobrevida. E o baixo letramento em saúde está associado ao atraso no início dessa radioterapia e à dificuldade de manter a continuidade. Por vezes, o que atrasou o tratamento foi algo como necessidade de realizar um procedimento odontológico prévio, uma medida que, talvez, um paciente com maior letramento em saúde teria antecipado, ou compreendido a razão, ou resolvido mais rapidamente dentro do sistema.

 

Depois do tratamento,  o paciente pode sair do hospital com uma traqueostomia, com a necessidade de realizar curativos complexos, com uma rotina de autocuidado que exige aprendizado, adaptação e suporte. Tudo isso tem impacto no desfecho clínico do paciente e também no custo do tratamento.

 

Como ocorre o impacto no custo do tratamento?

O impacto em desfecho clínico e custo estão interligados. Em relação a pacientes com câncer de cabeça e pescoço, fizemos um levantamento na instituição em que trabalho e descobrimos que metade dos retornos à emergência estava associada a problemas relativos à cânula de traqueostomia.

 

Acreditamos que muitos desses retornos poderiam ter sido evitados com uma boa intervenção em letramento em saúde sobre os cuidados de manejo com a cânula. Mas não é somente orientar de maneira burocrática esse paciente com as recomendações protocolares. É preciso saber se há água encanada na casa do paciente; se há alguém para ajudá-lo na tarefa; se o ambiente em que ele vive obedece os padrões mínimos de higiene. Ou seja, nossa responsabilidade deve ir além de passar a informação, eu preciso entender se o paciente, além de compreender, terá condições de colocar as recomendações em prática.  

 

E será que vale a pena promover todo esse letramento e ajudar a solucionar as dificuldades? Sem sombra de dúvida que sim. Mais orientados sobre o manejo da cânula, teremos menos intercorrências e menos necessidade de ir ao pronto-socorro. Com isso, haverá uma redução de custos, lembrando que um dia no nosso pronto-socorro tem o mesmo custo que um dia de UTI.

 

 

Diante de tudo isso, qual é o argumento central para que as equipes de saúde invistam em letramento em saúde no contexto do câncer de cabeça e pescoço?

O ponto central é este: o retorno sobre o investimento em letramento em saúde é potencialmente enorme exatamente porque a doença é complexa e cara. Pequenas intervenções bem direcionadas podem ter impacto desproporcional. Mas para isso precisamos, primeiro, parar de achar que o problema está no paciente. Quando existe a incapacidade de cuidar, o motivo é quase sempre uma falha da forma como nos comunicamos, de quem escolhemos para comunicar, do que assumimos que foi entendido sem verificar.

 

Em sua visão, quais são os principais desafios para o avanço do letramento em saúde no Brasil?

Os desafios são vários e atuam em diferentes camadas. O primeiro, e talvez o mais urgente, é a consciência das organizações de saúde,  especialmente de suas lideranças. Enquanto quem está no topo não compreender o que é letramento em saúde, sua relevância e sua urgência, dificilmente ele se tornará prioridade institucional.

 

O segundo desafio é estrutural e de longo prazo: as escolas precisam entender que educar em saúde não é o mesmo que promover letramento em saúde. São conceitos distintos, e essa diferença precisa chegar à educação básica.

 

O terceiro passa pela formação dos próprios profissionais de saúde. Desde a graduação, é preciso cultivar uma visão em que o letramento em saúde não seja "problema do paciente", mas responsabilidade do profissional. Essa mudança de perspectiva é fundamental.

 

E há ainda um quarto desafio, talvez o mais complexo: a desinformação. Vivemos numa era em que há muita informação de qualidade disponível, mas ela navega em um oceano de conteúdo falso ou distorcido. O alcance da desinformação é muito maior do que o de uma informação correta e isso exige regulação e estratégias específicas de enfrentamento. Não basta que o paciente não saiba algo; o problema se multiplica quando há forças organizadas disseminando o oposto do que é verdadeiro.

 


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