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A equipe que transforma a jornada do paciente com câncer de cabeça e pescoço

  • Foto do escritor: gbcpcomunicacao
    gbcpcomunicacao
  • 29 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

O tratamento do câncer de cabeça e pescoço pode deixar sequelas importantes, mas a atuação coordenada de uma equipe multidisciplinar faz toda a diferença no tratamento,  recuperação e qualidade de vida do paciente.


 Dr. Vinicius Cruz Parrela,

Confira a seguir a entrevista com o Dr. Vinicius Cruz Parrela, médico oncologista clínico do Biocor Instituto - Oncologia D’Or e do Instituto de Oncologia de Ciências Médicas em Belo Horizonte (MG)


Em geral, quais são as possíveis sequelas resultantes de um câncer de cabeça e pescoço?

As possíveis sequelas variam bastante e estão relacionadas à localização do tumor e aos  tratamentos realizados (cirurgia, radioterapia e/ou quimioterapia). Importante lembrar que o câncer de cabeça e pescoço inclui tumores na boca (lábios, língua, gengiva, céu da boca), garganta (faringe, laringe), glândulas salivares, tireoide, seios paranasais, fossas nasais e até o couro cabeludo e pele dessa região. Os mais comuns são os  que acometem mucosas. Dessa forma as principais sequelas são as que afetam estruturas vitais para a fala, respiração, deglutição e olfato. Claro que um tumor de faringe e laringe, por exemplo, tem complicações diferentes  de um tumor de nasofaringe ou de seios da face e assim por diante.

 

Quais os efeitos colaterais e sequelas mais comuns de cada tipo de tratamento?

Em função da cirurgia, a depender da localização e da extensão, o paciente pode apresentar dificuldade para mastigar, engolir (disfagia), falar (disfonia/afonia) e respirar (inchaço, traqueostomia). No caso do câncer de tireoide, se a glândula for totalmente removida, precisará fazer reposição hormonal para o resto da vida. O tratamento quimioterápico pode provocar efeitos colaterais, como fadiga, náuseas, vômitos, diarreia, perda de apetite, mudanças no paladar, alterações na medula óssea (imunidade, plaquetas, anemia). A radioterapia, por sua vez, pode causar boca seca (xerostomia) e saliva espessa, aftas/feridas (mucosite), dor, alterações no paladar, dificuldade para engolir (disfagia), voz rouca/alterada, dor de ouvido, infecções (candidíase oral), cáries/doença gengival, mandíbula rígida (trismo) etc.


Diante dos efeitos colaterais e sequelas qual é o papel da equipe multidisciplinar na reabilitação do paciente?

A equipe multidisciplinar tem papel fundamental na reabilitação do paciente. Esse time é formado, entre outras especialidades, por odontologista, fonoaudiólogo, nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta e enfermeiro. Todos especializados em oncologia. São esses profissionais que atuam no suporte nutricional, emocional e na gestão dos efeitos colaterais, garantindo cuidado integral do paciente.  O profissional da odontologia  pode cuidar das questões relacionadas à saúde bucal. É ele, por exemplo, que cuida da dentição do paciente de maneira precoce, antes do tratamento para que ele inicie sua jornada com a boca saudável,  e, se possível, continue assim durante e depois. O fonoaudiólogo pode cuidar de problemas nas funções da fala e deglutição. O nutricionista garante a viabilidade da boa alimentação, inclusive, se necessário, com adaptações durante uma mucosite. O psicólogo fica atento à saúde mental. A atuação desses profissionais não é isolada. Eles interagem o tempo todo, inclusive com os médicos do paciente.

 

Em relação à saúde mental, quais as principais condições desafiadoras que esses pacientes podem apresentar?

A doença e os tratamentos agressivos, sem dúvida, impactam na saúde mental do paciente. Muitos desenvolvem depressão e ansiedade, têm medo da recorrência da doença e de uma possível finitude. Outros distúrbios importantes são os relacionados a sequelas com impacto na aparência, motivo de sofrimento e perda da identidade pessoal. Em todas essas situações, inclusive em parceria com outras especialidades, a atuação do psicólogo é importante.


Outra situação em que atuação dessa especialidade é importante é com os pacientes tabagistas que não conseguem largar o vício mesmo após o diagnóstico. Acontece de pacientes fumarem escondido durante a internação. Nesses casos, além da intervenção do psicólogo, pode haver atuação do psiquiatra, que prescreve medicações que ajudam o paciente em crises de abstinência, e até da nutricionista que gerencia problemas de paladar, que esses pacientes podem apresentar.


Com ajuda da equipe multidisciplinar, quais resultados de reabilitação o paciente com câncer de cabeça e pescoço pode esperar? A reabilitação é total?

A reabilitação tem como objetivo proporcionar ao paciente o máximo de independência funcional e de qualidade de vida. O resultado alcançado sempre será melhor quando há intervenção da equipe multidisciplinar comparado a um paciente que não tenha acesso a esse acompanhamento. No entanto, a reabilitação total no sentido de restaurar tudo como era antes do diagnóstico é rara.


Os resultados variam conforme a localização e a extensão do tumor, o tipo de tratamento realizado, a idade do paciente, o estado nutricional e a adesão ao programa de reabilitação. Começar o trabalho com a equipe multidisciplinar precocemente, antes do tratamento, também faz diferença.


Mas alguns pacientes podem apresentar sequelas permanentes como alterações na voz, dificuldades residuais de deglutição, boca seca ou limitação na abertura bucal. No caso de perda da voz, por exemplo, o paciente, com ajuda do fonoaudiólogo, pode aprender a usar a laringe eletrônica,  um dispositivo que permite produzir uma voz robotizada, mas compreensível.


Assim, mesmo que o paciente apresente sequelas, o trabalho com a equipe multidisciplinar contribui para que a qualidade de vida melhore por meio de adaptações e estratégias compensatórias. Muitos pacientes recuperam funcionalidade suficiente para retomar suas atividades cotidianas e sociais.



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