Você conhece o vírus Epstein-Barr?
- gbcpcomunicacao

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Se você não conhece, faz parte do grupo da maioria das pessoas. O vírus Epstein-Barr é pouco conhecido e constitui fator de risco para o câncer de nasofaringe.

Para saber mais sobre o tema, conversamos com o Dr. Wilker Dias Martins, médico patologista do Hospital Israelita Albert Einstein, Grupo DASA e Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. A seguir, confira a entrevista.
O que é o vírus EBV?
Dr. Wilker – EBV é a sigla para Epstein-Barr Virus. Esse microrganismo faz parte da família dos herpesvírus, a mesma dos vírus responsáveis pela herpes labial e a genital. O EBV é classificado como herpesvírus do tipo 4. Apesar de ser pouco conhecido, é muito frequente na população, que o relaciona à doença do beijo — o nome popular da mononucleose infecciosa, transmitida principalmente pela saliva.
Além da mononucleose, o EBV está associado a outras doenças?
Dr. Wilker – Sim, e aí está o ponto mais importante: o EBV é o principal agente responsável pelo desenvolvimento do câncer de nasofaringe, especialmente o subtipo não queratinizante. A literatura científica estima que, principalmente nas regiões endêmicas, mais de 90% dos casos desse tipo de câncer estão associados à infecção por esse vírus. Nesse contexto, o EBV pode atuar diretamente nas células do epitélio da nasofaringe, induzindo a carcinogênese. Outra forma é alterando o microambiente tumoral, reduzindo a resposta imune e facilitando a progressão para o câncer.
A chance de desenvolver câncer de nasofaringe é alta entre as pessoas infectadas?
Dr. Wilker – Na maioria das vezes, o sistema imune resolve a infecção, o vírus permanece em estado latente no organismo e a pessoa não desenvolve câncer. O câncer de nasofaringe é considerado uma doença rara. Estima-se cerca de 150.000 casos por ano no mundo, com maior frequência na Ásia. Na América e na Europa, é mais raro. Além disso, não basta ter o EBV para desenvolver o câncer de nasofaringe. A doença também está condicionada a outros fatores, como a resposta imune individual, comorbidades e condições genéticas.
Como ocorre a transmissão?
Dr. Wilker – A transmissão acontece, principalmente, por meio de fluidos corporais, sendo a saliva a via mais comum. Além do beijo, o contato pode ocorrer pelo uso compartilhado de talheres, copos ou escovas de dentes. A transmissão pelo ar não é frequente, pois o vírus não se sustenta a longas distâncias. Transmissões por sangue, transplante ou sêmen existem, mas são raras. O vírus pode infectar pessoas de todas as faixas etárias: crianças, adolescentes e adultos.
Há alguma forma de prevenção?
Dr. Wilker – A forma mais eficaz seria a vacina. Mas, infelizmente, ainda não existe um imunizante contra o EBV. Outras formas de prevenção são muito difíceis pelos próprios mecanismos de transmissão do vírus, que acontece por ações cotidianas. O simples compartilhamento de um copo com uma pessoa infectada é suficiente.
Quais são os sintomas da infecção pelo EBV?
Dr. Wilker – Na fase inicial, os sintomas costumam ser inespecíficos. A pessoa pode apresentar mal-estar, coriza, aumento de gânglios e dor de garganta. São sintomas comuns que muitas vezes podem ser confundidos com um resfriado ou gripe.
Você é patologista. Qual é o papel da especialidade no diagnóstico do câncer de nasofaringe?
Dr. Wilker – Temos um papel importante. Quando chega uma biópsia de lesão nasofaríngea suspeita, analisamos a lâmina e identificamos se é um câncer. Nessa região e dependendo das características do tumor, devemos pensar na associação com o EBV. Por essa razão, fazemos a pesquisa ativa do vírus por meio da hibridização in situ, uma técnica de laboratório que detecta a presença do vírus nas células tumorais. Esse resultado corrobora o diagnóstico de câncer de nasofaringe relacionado ao EBV e é encaminhado ao oncologista ou cirurgião responsável pelo tratamento.
Como é feito o tratamento do câncer de nasofaringe? Segue o protocolo de outros tipos de câncer de cabeça e pescoço?
Dr. Wilker – O protocolo se diferencia dos demais cânceres de cabeça e pescoço que, em geral, têm a cirurgia como principal tratamento. No caso do tumor de nasofaringe, via de regra, o tratamento de escolha é a radioterapia, associada ou não à quimioterapia.
Qual é o prognóstico dos pacientes submetidos ao tratamento?
Dr. Wilker – Antes, é preciso lembrar que cada paciente é único em relação aos resultados do tratamento. A nasofaringe é uma região anatômica de difícil visualização, localizada atrás das conchas nasais, próxima ao palato mole. Os sintomas demoram a aparecer e são comuns a outras doenças não malignas – exemplo: sangramento ou obstrução nasal, alteração da audição ou linfonodos aumentados. Quando o diagnóstico é feito tardiamente, o que ocorre com a maioria dos casos, o prognóstico é menos favorável. No estágio 1, a sobrevida em 5 anos pode chegar a mais de 95%. No estágio 4, essa taxa cai para 70%. São índices que reforçam a importância do diagnóstico precoce.
O EBV está associado a outros tipos de câncer?
Dr. Wilker – Sim. É importante que as pessoas saibam que o EBV está associado a outros tumores, como linfomas – s por exemplo o linfoma de Burkitt – e alguns tipos de câncer gástrico. A conscientização sobre esse vírus é relevante, não para criar alarmismo, mas para ampliar o conhecimento sobre os fatores de risco oncológicos.
Qual é sua mensagem para o público em geral sobre o vírus Epstein-Barr?
Dr. Wilker – Que conhecimento não é sinônimo de medo. O EBV é um vírus extremamente prevalente, e a maioria das pessoas infectadas nunca desenvolverá câncer. A mensagem central é a de atenção aos sinais do próprio corpo. Sintomas persistentes como obstrução nasal, alteração auditiva ou linfonodos aumentados não devem ser ignorados ou atribuídos somente a causas banais. Procurar um médico diante dessas situações pode fazer toda a diferença no desfecho. O diagnóstico precoce é a ferramenta mais poderosa que temos contra o câncer de nasofaringe e os demais cânceres de forma geral.


