Nutrição antes da cirurgia: um passo essencial no cuidado do paciente com câncer de cabeça e pescoço
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Para o paciente com câncer de cabeça e pescoço e para todas as outras doenças oncológicas, o preparo nutricional antes da cirurgia é importante e tem como objetivo contribuir para o melhor resultado do procedimento.

Thais Miola, coordenadora de Nutrição Clínica do A.C.Camargo Cancer Center, explica por que o encaminhamento imediato ao nutricionista no momento do diagnóstico do paciente oncológico pode fazer toda a diferença no resultado cirúrgico.
Qual é a importância da nutrição para o paciente com câncer de cabeça e pescoço antes da cirurgia?
Para o paciente com câncer de cabeça e pescoço e para todas as outras doenças oncológicas, o preparo nutricional antes da cirurgia é importante e tem como objetivo contribuir para o melhor resultado do procedimento. O sucesso da cirurgia traz, entre outros benefícios, a redução de complicações e de tempo de internação. Todos nós envolvidos no cuidado com o paciente queremos que ele volte para casa e que retome suas atividades o mais breve possível. Para isso, o paciente precisa estar bem nutrido.
Como acontece o preparo nutricional antes da cirurgia?
Esse cuidado é baseado em educação nutricional, alimentação equilibrada e aumento da oferta proteica. Na cirurgia, o organismo utiliza nutrientes que estavam guardados como uma reserva. A falta ou inadequação dessa reserva de nutrientes interfere na resposta à cirurgia. Por isso é tão importante a atuação do nutricionista na chamada pré-habilitação. Se possível, a pré-habilitação deve começar entre quatro e oito semanas antes da cirurgia. Em geral, trabalhamos em conjunto com o educador físico ou fisioterapeuta, além do psicólogo. É importante que o paciente nesse período consiga melhorar sua composição corporal, otimizando os estoques de nutrientes e ganhando massa muscular. Além disso, uma semana antes da cirurgia entramos com a imunonutrição. Esses cuidados valem para todos os pacientes acometidos por qualquer tipo de câncer que farão cirurgia.
O que é imunonutrição?
É a oferta de nutrientes por meio de suplementação que vão modular a resposta inflamatória causada pelo trauma cirúrgico. Em pacientes que estão bem nutridos, entramos com a imunonutrição uma semana antes do procedimento. Para os que apresentam quadro de desnutrição, duas semanas.
Sempre é possível fazer a pré-habilitação e a imunonutrição nos prazos adequados?
Esse é um de nossos desafios porque nem sempre o paciente terá esse prazo antes da cirurgia. Mas em qualquer momento que o nutricionista entrar, seu trabalho vai trazer resultados positivos. Se não houve tempo para fazer a pré-habilitação, a imunonutrição será possível porque é muito difícil o paciente ser encaminhado para cirurgia em uma semana e esse acompanhamento continua no pós-operatório.
Como é definida a necessidade de consumo de alimentos ou suplementos para os pacientes?
A avaliação é individualizada porque a necessidade de consumo de energia, de proteína e de vitaminas difere de um paciente para outro. Na hipótese de um paciente que, com exceção do câncer, apresenta um quadro saudável, é possível aumentar a oferta proteica com alimentação. Outro cenário seria de um paciente que apresenta queixas – não está conseguindo mastigar ou deglutir direito. Nesse paciente, provavelmente, vamos precisar entrar com algum suplemento porque a introdução de alimentos não será suficiente. O manejo de cada paciente depende da avaliação nutricional.
Como é feita a avaliação nutricional de um paciente oncológico?
Além do exame físico e da história clínica do paciente, analisamos a composição corporal, como está a ingestão de alimentos e qual é o padrão metabólico. Podemos utilizar diferentes parâmetros nessa análise. Na composição corporal, a antropometria, o percentual de perda de peso, as circunferências e dobras cutâneas, a bioimpedância elétrica, a tomografia computadorizada. Para avaliar a ingestão alimentar, aplicamos um questionário que traz informações sobre a frequência alimentar, o recordatório de 24 horas ou o registro alimentar. Para padrão metabólico, podemos realizar o exame de sangue que somamos às informações da composição corporal e da ingestão de alimentos. Todos esses dados são importantes para que o nutricionista chegue a um diagnóstico e determine, por exemplo, se o paciente precisa de algum suplemento. Importante destacar que mesmo com o suplemento, ele vai precisar de uma base alimentar adequada.
O que é uma alimentação adequada?
Alimentação adequada é aquela que obedece parâmetros de quantidade e de qualidade. Não adianta o paciente consumir a quantidade certa se sua dieta é composta de alimentos não saudáveis, como ultraprocessados. Nesse caso, o melhor suplemento não vai ajudar. Por outro lado, se o paciente opta por alimentos saudáveis, mas o problema é não alcançar a meta de quantidade, o suplemento vai ajudar.
Em todos esses aspectos que comentamos, há algum desafio específico em relação aos pacientes com câncer de cabeça e pescoço?
As condutas dependem do momento em que está o paciente – diagnóstico, tratamento neoadjuvante/adjuvante, pré ou pós-operatório – e do estado nutricional avaliado pelo nutricionista especialista. Mas o paciente com câncer de cabeça e pescoço muitas vezes já chega com uma baixa ingestão alimentar importante. Tudo vai depender do tamanho do tumor, do estadiamento da doença e se ele já fez algum tratamento prévio. Então, o desafio do nutricionista é reabilitar esse paciente. Há casos em que alimentação e suplementos não são suficientes e precisamos utilizar alternativas como a nutrição enteral antes da cirurgia. Se for possível, o paciente pode manter a alimentação por boca paralelamente. É um paciente em que nossa intervenção proativa é ainda mais importante. Não podemos esperar a perda de peso e dificuldades para se alimentar para tomar medidas. Para isso, o paciente precisa ser encaminhado para o nutricionista no momento do diagnóstico do câncer de cabeça e pescoço. Isso vale para todos os pacientes oncológicos.
Além dos cuidados de saúde, o suporte externo de familiares ou cuidadores é importante?
Esse suporte da família e do cuidador é muito importante. Além do paciente, temos que ter um olhar especial para o cuidador que pode ser a pessoa da família que assume diretamente as tarefas do dia a dia, uma atividade estressante. O paciente, por sua vez, além da doença, precisa passar por diferentes especialidades e tem muitas informações a assimilar. Também nesse aspecto, o apoio do familiar ou do cuidador é essencial. Nas consultas com o nutricionista, pedimos que os dois estejam presentes. Fornecemos todas as informações necessárias, repassamos tudo quantas vezes forem necessárias e estamos sempre à disposição para solucionar as dúvidas que vão surgindo ao longo da jornada. Para ajudar, fornecemos informações sobre as condutas por escrito e em materiais ilustrativos.
O que podemos considerar uma alimentação adequada para o paciente oncológico?
Em termos de qualidade é o básico bem-feito. É preciso incluir alimentos representantes de todos os grupos alimentares – grãos e cereais integrais, carnes magras, leites e derivados, leguminosas, frutas, verduras e legumes. Na verdade, um dos pratos mais tradicionais do brasileiro, o arroz, feijão bife e salada, é um ótimo exemplo de alimentação nutritiva. Claro que o paciente em tratamento oncológico nem sempre vai conseguir comer todos os alimentos e o nutricionista precisa ser capaz de entender a situação e fazer adaptações de acordo com a realidade do paciente. Também é importante fazer os ajustes necessários para pacientes que devido a alguma condição clínica não podem consumir determinados alimentos. Assim como para vegetarianos, veganos ou outra situação em que o paciente por questões culturais, religiosas, entre outras, não consome determinados alimentos.
Qual é sua mensagem final?
Quero reforçar a importância da intervenção proativa do nutricionista para alcançar os melhores resultados para o paciente. Para que isso seja possível, é fundamental o encaminhamento no momento do diagnóstico de todos os pacientes oncológicos. Assim, podemos fazer os ajustes necessários para manter um estado nutricional adequado. Essa medida é ainda mais relevante para pacientes com câncer de cabeça e pescoço em que a literatura científica aponta para alta prevalência de desnutrição



