Conheça a atuação do farmacêutico oncologista na jornada do tratamento do paciente com câncer de cabeça e pescoço
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- há 15 horas
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Conversamos com o farmacêutico oncologista Eduardo Bambirra para entender como essa especialidade se posiciona no tratamento do paciente de câncer de cabeça e pescoço.

De maneira integrada e colaborativa com a equipe multidisciplinar e o médico, o farmacêutico oncologista atua em contato direto com o paciente e seu trabalho vai muito além da verificação de medicamentos.
Para ficar por dentro, leia a entrevista a seguir
Qual é o papel do farmacêutico especializado em oncologia nos cuidados do paciente com câncer de cabeça e pescoço?
O farmacêutico atua como um parceiro estratégico com foco na segurança do paciente, trabalhando em sintonia com o médico e os profissionais da equipe multidisciplinar. Existe um respaldo legal para a validação das prescrições, mas longe de ser um processo de fiscalização, trata-se de somar olhares. Nós analisamos juntos os esquemas de suporte, por exemplo, a profilaxia de êmese (náuseas e vômitos), avaliando como tornar aquela terapia mais confortável para a realidade de cada paciente. É um trabalho colaborativo de acompanhamento farmacoterapêutico. Por meio das consultas de farmácia, nós analisamos de maneira integrada tudo o que o paciente consome, desde os medicamentos de rotina até chás e suplementos. O objetivo é garantir que tudo seja indicado, efetivo e seguro. Quando identificamos qualquer oportunidade de melhoria ou risco de interação, discutimos o caso com a equipe médica para chegar à melhor solução.
Que desafios mais específicos e frequentes você encontra no manejo dos pacientes com tumores de cabeça e pescoço?
Muitas vezes, o paciente faz uso de medicamentos desnecessários ou que representam risco quando associados aos indicados no tratamento quimioterápico. Entre eles, as plantas, os fitoterápicos e os multivitamínicos são os mais comuns. São substâncias tomadas por conta própria, receitas que os próprios pacientes às vezes nem compartilham com o oncologista, por acharem irrelevantes. Durante a consulta farmacêutica precisamos estar atentos a isso. Outro grande desafio é a via de administração. O medicamento mais potente que temos para a prevenção de náusea, por exemplo, é uma cápsula. Porém, os pacientes de cabeça e pescoço muitas vezes perdem a capacidade de deglutir ao longo do tratamento devido à piora causada pela radioterapia ou pelo aparecimento de mucosite.
E como vocês resolvem esse problema da medicação quando o paciente perde a capacidade de engolir? Quais são as alternativas?
Fazemos um processo chamado conciliação medicamentosa. Eu analiso todos os remédios do paciente e verifico a disponibilidade de fórmulas líquidas para sugerir a substituição ao médico. Quando não há a versão líquida industrializada, podemos recorrer à farmácia de manipulação para mudar a forma farmacêutica de sólida para xarope ou elixir, sempre considerando a estabilidade da molécula, pois há risco de perda de princípio ativo. Outra alternativa é adaptar os medicamentos para o uso via sonda, um processo que exige pesquisa cuidadosa em bases de dados porque, por vezes, o medicamento de um laboratório X pode ir na sonda, mas o do laboratório Y não pode.
Sobre a cultura do uso de plantas medicinais e chás, que é muito forte no Brasil, como convencer o paciente de que o "natural" também pode fazer mal?
Esse é um dos maiores desafios atuais, impulsionado pela internet e por promessas milagrosas vendidas como inofensivas. Eu sempre uso da ponderação e do olho no olho. Primeiro, estabeleço um vínculo, me apresento e explico o motivo de minhas recomendações em relação à rotina dele. Precisamos considerar o fator cultural das plantas e ervas no Brasil. Então, eu tento negociar. Explico de modo claro: "Olha, a planta tal me preocupa porque você usa um anticoagulante e ela aumenta o risco de sangramento. Precisamos suspendê-la durante o tratamento. Mas o seu chazinho de hortelã ou de mate você pode manter". Nós elegemos e eliminamos primeiro o que oferece maior risco — como certas vitaminas associadas ao aumento de sangramento ou a riscos específicos para fumantes. Quando o paciente ganha confiança em nós e a equipe médica reforça o discurso, eles aderem muito bem.
E quanto à homeopatia? Ela também traz essa preocupação com interações?
Com a homeopatia temos menos problemas nesse sentido. Ela se baseia no princípio de “semelhante em altas diluições”. No final do processo de diluição, na maioria dos produtos, não há mais moléculas da substância ativa ali. Portanto, em termos de interação medicamentosa, a homeopatia não é uma preocupação. Às vezes, eu oriento o paciente a interromper o uso pelo aspecto financeiro, pois ele pode estar gastando recursos com esses medicamentos e deixando de comprar o essencial para o seu suporte.
Como funciona o fluxo de comunicação e a sua atuação dentro da equipe multidisciplinar? O farmacêutico pode prescrever?
O farmacêutico não pode. Portanto, tudo o que eu sugiro passa pelo médico prescritor. Temos uma interface direta e excelente com os médicos. Também trabalhamos muito próximos da enfermagem, cuidando do manejo da sonda, e da psicologia, principalmente em casos de cessação do tabagismo, discutindo qual suporte farmacológico ou antidepressivo seria mais adequado para aquele paciente.
Qual é o momento ideal para o paciente ter esse primeiro contato com a farmacêuticoi oncologista clínica e como isso ocorre na rotina?
O cenário ideal seria realizar a consulta antes do início da quimioterapia, para mapear previamente todas as interações possíveis. Mas, na maioria das vezes, não é exatamente assim que acontece. O mais comum é conhecermos o paciente no primeiro dia de tratamento, junto com os demais profissionais da equipe multidisciplinar. O paciente de câncer de cabeça e pescoço exige um acompanhamento mais prolongado, comparado aos acometidos por outros tipos de tumores, porque sabemos que sua condição clínica vai demandar intervenções constantes na rota de administração de seus medicamentos ao longo de todo o tratamento.
Para concluir, a farmácia oncológica evoluiu muito. Como está a divisão dessas funções hoje e qual é a formação necessária para quem deseja seguir a área clínica?
A farmácia em um centro ou hospital oncológico é um setor altamente complexo e hoje está bem segmentada. Temos os profissionais que atuam em gestão, liderança e compras; os farmacêuticos dedicados exclusivamente ao preparo e manipulação da quimioterapia; o farmacêutico clínico, que faz esse trabalho de linha de frente direto com o paciente, que é o meu caso, e muitas outras funções importantes.
Para atuar nessa área, não basta apenas a graduação em Farmácia. É necessária uma especialização lato sensu em oncologia ou residência na área. É um mercado em expansão, embora as vagas de residência em oncologia ainda sejam escassas no país. Em Minas Gerais pelo ENARE, por exemplo, temos apenas em Uberlândia. É preciso estudar a fundo, inclusive realizando cursos complementares em fitoterapia, para dar conta da complexidade que o nosso contexto cultural e clínico exige.



