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Você sabe qual é o papel do fisioterapeuta nos cuidados do paciente com câncer de cabeça e pescoço?

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    gbcpcomunicacao
  • há 20 horas
  • 4 min de leitura

No cenário ideal, o paciente com câncer de cabeça e pescoço já busca uma primeira avaliação fisioterapêutica logo após o diagnóstico, antes mesmo de iniciar o tratamento oncológico. Isso é importante, entre outros motivos, porque muitos pacientes já chegam com comorbidades que vão se somar aos efeitos do tratamento.


Lorena Lima Brito Ferreira

Na entrevista, a fisioterapeuta especializada em oncologia Lorena Lima Brito Ferreira fala sobre a atuação dessa especialidade antes, durante e depois do tratamento de pacientes com câncer de cabeça e pescoço. O acompanhamento do fisioterapeuta contribui muito para a qualidade de vida do paciente. Fique sabendo de tudo na entrevista a seguir

 

Qual é o momento ideal para o paciente com câncer de cabeça e pescoço iniciar a fisioterapia?

No cenário ideal, o paciente já busca uma primeira avaliação fisioterapêutica logo após o diagnóstico, antes mesmo de iniciar o tratamento oncológico. Isso é importante, entre outros motivos, porque muitos pacientes já chegam com comorbidades que vão se somar aos efeitos do tratamento. Uma avaliação prévia permite tratar o que já existe, explicar o que a pessoa pode sentir em cada fase e, principalmente,  orientar e intervir com condutas de prevenção de complicações.


Que tipo de comorbidade é comum nesses pacientes?

Dores prévias, encurtamento muscular, dificuldade de movimento, fraqueza muscular (especialmente em pacientes mais idosos) e problemas respiratórios prévios,  como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), são frequentes. Ocorre que essas condições podem agravar o tratamento oncológico e piorar o prognóstico, afinal tudo está no mesmo corpo, no mesmo sistema.


Complicações motoras e respiratórias são comuns em câncer de cabeça e pescoço?

Muito comuns, embora variem conforme o tipo de diagnóstico e tratamento. Quem faz quimioterapia tende a ter mais fadiga, que afeta tanto a parte motora (perda de massa muscular) quanto a respiratória (descondicionamento). Já a radioterapia pode comprometer mais a pele (devido a radiodermite) e dificultar movimentos principalmente de pescoço e de mandíbula, porque tende a enrijecer os tecidos da região tratada.


O que é radiodermite e como a fisioterapia pode ajudar?

É a lesão de pele causada pela radioterapia. A região fica avermelhada, quente, pode descamar e, em alguns casos, evoluir para ferida. É uma complicação pouco discutida fora da fisioterapia oncológica, mas  a fisioterapia pode ajudar muito na prevenção e no tratamento. Usamos a fotobiomodulação, que é um laser de baixa potência, capaz de estimular a regeneração e cicatrização da pele, sem uso de medicação. A mesma técnica ajuda a melhorar cicatrizes cirúrgicas e a reduzir fibrose e aderências, o que também facilita o movimento, lembrando que uma cicatriz mais flexível permite melhor amplitude de movimento do pescoço e da mastigação.


Além da fotobiomodulação, que outros recursos podem ajudar o paciente com câncer de cabeça e pescoço?

A associação de condutas e recursos fisioterapêuticos, usados com a indicação e no momento certo, otimiza o tratamento. Podem ser usadas manobras manuais para mobilizar a pele e a cicatriz, exercícios ativos, alongamentos, fortalecimento, aplicação de bandagens e exercícios respiratórios, por exemplo. É difícil separar completamente a parte motora, a respiratória e a cicatrização porque na prática, o atendimento trabalha tudo de modo integrado, de acordo com a demanda de cada paciente.

 

Se o paciente não fez esse acompanhamento preventivo antes da cirurgia, quando a fisioterapia entra?

O recomendado é começar logo após a cirurgia. Haverá uma progressão gradual. Primeiro trabalhamos a cicatrização, edemas e dores, depois progredimos em amplitude de movimento e vamos avançando para força e resistência. Um ponto de atenção é o linfedema, que é um tipo de inchaço crônico mais associado a cirurgias, que envolvem retirada de linfonodos. Essa estrutura ajuda a drenar os líquido do corpo e sem essa via, pode haver acúmulo de líquido e o paciente fica mais propenso a desenvolver linfedema. A fisioterapia atua tanto na prevenção quanto no tratamento dessa complicação.


A traqueostomia muda esse trabalho da fisioterapeuta?

Muda, sim. Por exemplo, o cuidado respiratório se torna mais intenso. Precisamos trabalhar também a readaptação do paciente traqueostomizado, que exige uma atuação respiratória mais específica.


Como funciona a reabilitação fisioterapêutica ao longo do tratamento?

 Acompanhamos as fases do tratamento oncológico, não necessariamente de forma contínua. O paciente pode se recuperar bem da cirurgia, voltar à fisioterapia quando começa a radioterapia, e voltar de novo quando entra a quimioterapia.  Cada etapa tem suas próprias demandas. A alta da fisioterapia, inclusive, não acontece necessariamente junto com a alta do oncologista. Alguns pacientes seguem em acompanhamento por dor, dormência, fraqueza, limitação de movimento ou linfedema, mesmo depois de finalizado o tratamento oncológico.


Que outras sequelas o fisioterapeuta pode tratar?

Além do que já abordamos, o paciente pode ter diferentes sequelas de acordo com cada tratamento. Na cirurgia, redução da amplitude de movimento e força muscular, parestesia (dormência), dores. Na quimioterapia,  fraqueza muscular, descondicionamento físico e  fadiga oncológica. Na radioterapia, fibroses e limitação  da amplitude de movimento.


Qualquer fisioterapeuta pode atender esse paciente, ou é preciso uma especialização?

O ideal é ser atendido por um fisioterapeuta oncológico. Assim como um problema no olho leva à procura de um oftalmologista e não de um ortopedista, a fisioterapia também tem suas subespecialidades. A formação nessa área acontece por residência ou pós-graduação em oncologia (ambas com aproximadamente dois anos de duração), seguida da prova de título de especialista pela sociedade. É um fisioterapeuta que conhece as complicações específicas da doença e de cada etapa do tratamento e sabe quando e como prevenir e tratar da forma certa e direcionada.

 

 Em resumo,  qual é o principal benefício que o acompanhamento do fisioterapeuta traz para o paciente?

Em minha opinião, é a qualidade de vida. O trabalho de prevenção e tratamento das complicações reduz a intensidade das reações ao tratamento oncológico, tornando esse período mais leve e o retorno às atividades mais rápida e fácil. Nós não tratamos o câncer, mas a pessoa. Nosso objetivo é  contribuir para que ela volte à sua rotina o mais rápido e da melhor forma possível, sem sequelas ou lembranças pesadas de um processo que já é, por si só, bastante intenso.


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