Estudo mostra que mucosite grave cai de 41,9% para 29% no tratamento sequencial do câncer de nasofaringe
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O episódio 33 do Conexão Cabeça e Pescoço analisa os resultados do estudo Sequential vs Induction Plus Concurrent Chemoradiotherapy in Nasopharyngeal Carcinoma, publicado no JAMA, que comparou duas estratégias terapêuticas no tratamento do câncer de nasofaringe localmente avançado.

A apresentação é conduzida pelo oncologista clínico Gilson Veloso, com a participação como convidado do oncologista clínico Dr. Gilberto Castro Jr., do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e membro da diretoria do GBCP.
O estudo discutido no episódio é um ensaio clínico fase 3, multicêntrico, aberto e randomizado, conduzido entre 2018 e 2021 em seis centros chineses. Ao todo, 420 pacientes com carcinoma de nasofaringe em estágios III e IVA foram incluídos e distribuídos de forma aleatória entre duas abordagens terapêuticas. O regime considerado padrão combinou quimioterapia de indução seguida de quimiorradioterapia concomitante com cisplatina semanal. Já a estratégia experimental avaliou um esquema sequencial, com quimioterapia de indução, radioterapia isolada e quimioterapia adjuvante ao final do tratamento.
A principal motivação do estudo foi testar se a estratégia sequencial seria não inferior em eficácia, ao mesmo tempo em que reduziria a toxicidade aguda associada ao uso concomitante de cisplatina. Esse ponto é particularmente relevante no carcinoma de nasofaringe, uma doença que, apesar de apresentar bom potencial de cura, costuma exigir tratamentos intensivos e com impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes.
Com mediana de seguimento de 50 meses, a sobrevida livre de falha em três anos foi de 83,7% no grupo tratado com a estratégia sequencial, comparada a 79,5% no grupo submetido à quimiorradioterapia concomitante, atendendo ao critério estatístico de não inferioridade definido pelo protocolo. Não foram observadas diferenças significativas em sobrevida global, controle locorregional ou incidência de metástases à distância entre os dois grupos.
O principal diferencial apareceu no perfil de segurança. A incidência de mucosite aguda grave (grau 3 ou superior) foi significativamente menor no grupo que recebeu o tratamento sequencial, caindo de 41,9% no regime padrão para 29%. Também foram observadas reduções relevantes em náuseas e vômitos, toxicidades frequentemente associadas à cisplatina administrada de forma concomitante à radioterapia. Os eventos tardios, por outro lado, foram semelhantes entre as duas estratégias.
Na análise clínica apresentada no episódio, Gilberto Castro Jr. destaca que o carcinoma de nasofaringe é uma doença rara no Brasil, mas que a maioria dos pacientes é diagnosticada em estágio localmente avançado. Para ele, a quimioterapia de indução tem papel central nesse cenário, tanto por tratar precocemente micrometástases à distância quanto por permitir avaliar a sensibilidade tumoral antes da etapa locorregional. “A indução é mais bem tolerada e nos dá informações importantes sobre como esse paciente vai se comportar ao longo do tratamento”, observa o especialista.
Outro ponto enfatizado é a dificuldade prática de completar esquemas adjuvantes após a quimiorradioterapia. No próprio estudo, cerca de 20% dos pacientes não conseguiram concluir a quimioterapia adjuvante, o que evidencia o impacto cumulativo da toxicidade. Esse dado reforça a relevância de estratégias que consigam preservar eficácia sem sobrecarregar o paciente em um momento de maior fragilidade clínica.
Por fim, a discussão dialoga com tendências atuais de desintensificação terapêutica e com o interesse crescente em biomarcadores, como o DNA tumoral circulante, para personalizar decisões clínicas. Embora essas ferramentas ainda enfrentem barreiras de acesso e custo no Brasil, elas apontam para um futuro em que será possível selecionar melhor os pacientes que realmente se beneficiam de abordagens mais intensivas.
Ao reunir dados de eficácia e segurança, o estudo analisado no episódio 33 sugere que a estratégia sequencial é uma alternativa viável no carcinoma de nasofaringe localmente avançado, mantendo resultados oncológicos semelhantes ao tratamento padrão e reduzindo de forma significativa a mucosite grave. O episódio reforça a importância de equilibrar controle da doença e tolerabilidade, especialmente em tumores com potencial curativo elevado.
O papo completo está disponível em episódio do Conexão Cabeça e Pescoço, o podcast, em formato de pílulas, do GBCP.
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Referência do estudo
Xue F, Ou D, Xie C, Lin S, Li J, Chen X, Zhang F, Ying H, Lu X, Shen C, Xu T, Ou X, Li W, Zhou X, Du C, Zhou C, Hu C, He X. Sequential vs Induction Plus Concurrent Chemoradiotherapy in Nasopharyngeal Carcinoma: A Randomized Clinical Trial. JAMA Oncol. 2025 Jul 24;11(9):1011–20.
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