Radioterapia em dose escalonada reduz efeitos colaterais em carcinoma espinocelular de orofaringe ligado ao HPV
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O MC1675 é um ensaio clínico de fase 3, randomizado e aberto, no qual se investigou a redução expressiva da dose de radioterapia adjuvante (de 60 Gy para 30–36 Gy) associada ao uso semanal de docetaxel e se esse protocolo poderia diminuir toxicidades tardias sem prejudicar os desfechos oncológicos em pacientes com carcinoma espinocelular de orofaringe relacionado ao HPV.

O episódio 32 do Conexão Cabeça e Pescoço, podcast em formato de pílulas do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP), analisa os resultados do estudo De-escalated Adjuvant Radiotherapy versus Standard Adjuvant Treatment for HPV-associated Oropharyngeal Squamous Cell Carcinoma (MC1675). A discussão é conduzida pelo oncologista Gilson Veloso, diretor de Marketing do GBCP, com comentários do radio-oncologista Dr. Diego Chaves Rezende Morais, do Grupo Oncoclínicas Recife e do Hospital Santa Águeda, em Caruaru, além de membro da Sociedade Brasileira de Radioterapia e coordenador da Comissão de Educação Continuada do GBCP.
O MC1675 é um ensaio clínico de fase 3, randomizado e aberto, no qual se investigou a redução expressiva da dose de radioterapia adjuvante (de 60 Gy para 30–36 Gy) associada ao uso semanal de docetaxel e se esse protocolo poderia diminuir toxicidades tardias sem prejudicar os desfechos oncológicos em pacientes com carcinoma espinocelular de orofaringe relacionado ao HPV.
Esse é um cenário clínico marcado por altas taxas de cura após cirurgia e tratamento adjuvante padrão, mas também por uma carga significativa de efeitos adversos persistentes, como disfagia, xerostomia, osteorradionecrose e dependência prolongada de sonda enteral
Entre 2016 e 2020, o estudo recrutou 228 pacientes em dois centros. Da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, 194 participantes iniciaram o tratamento conforme o protocolo. Todos apresentavam tumores HPV-associados, com positividade para p16 e ao menos um fator patológico de risco intermediário ou alto, como invasão linfovascular, perineural, múltiplos linfonodos comprometidos ou extensão extranodal. No braço experimental, receberam radioterapia de-escalonada em esquema BID por duas semanas, totalizando 30 Gy — ou 36 Gy nos casos com extensão extranodal — associada a docetaxel nos dias 1 e 8. No braço padrão, o tratamento consistiu em 60 Gy ao longo de seis semanas, com ou sem cisplatina semanal conforme o risco patológico.
O desfecho primário foi a toxicidade tardia de grau 3 ou superior entre 3 e 24 meses após o tratamento. Nesse ponto, o resultado se mostrou positivo. A taxa de eventos tardios graves caiu de cerca de 11% no tratamento padrão para 3% no regime de-escalonado. Também houve redução importante na necessidade de gastrostomia permanente, caindo de 8% para 2%, além de melhora consistente nos questionários de qualidade de vida, especialmente nos domínios de dor, deglutição, xerostomia e funcionamento global, com benefícios observados por até dois anos.
Na análise conduzida no podcast, Diego Chaves Rezende Morais destaca que o caráter arrojado da proposta, tanto pela magnitude da redução de dose quanto pela duração muito mais curta do tratamento, torna os resultados particularmente relevantes do ponto de vista do paciente. “Conseguir reduzir toxicidade crônica de grau elevado em um contexto de altas taxas de cura é um ganho clínico enorme, sobretudo em tumores HPV-relacionados, em que a expectativa de sobrevida longa torna os efeitos tardios ainda mais impactantes”, analisa o convidado.
Quando o foco se volta para os desfechos oncológicos, entretanto, a interpretação exige cautela. No conjunto da população estudada, o controle locorregional e a sobrevida global em dois anos permaneceram elevados em ambos os braços, acima de 95%. No entanto, análises de subgrupos revelaram diferenças importantes. Pacientes classificados como alto risco, especialmente aqueles com extensão extranodal, apresentaram pior controle locorregional, menor sobrevida livre de progressão e maior risco de metástases à distância no braço de-escalonado, mesmo com a dose ligeiramente maior de 36 Gy. Resultado semelhante foi observado no subgrupo pN2, segundo a oitava edição do TNM, caracterizado por doença bilateral ou contralateral no pescoço.
De acordo com Moraes, esses achados delimitam com mais precisão o espaço clínico da estratégia. “O estudo deixa claro que o de-escalonamento não é seguro do ponto de vista oncológico para pacientes de alto risco, como aqueles com extensão extranodal ou pN2. Por outro lado, nos pacientes de risco intermediário, os desfechos oncológicos foram satisfatórios e a redução de toxicidade é muito expressiva, o que abre a possibilidade de uso criterioso dessa abordagem”, comenta.
A conversa também aborda limitações metodológicas do MC167 como a ausência de cegamento, a predominância de pacientes brancos e o fato de o desfecho primário não ter sido oncológico. Segundo o apresentador do episódio, Gilson Veloso, esse último ponto merece atenção especial, já que pode induzir a leituras apressadas quando se considera apenas o resumo do artigo. “Se a proposta é mudar conduta oncológica, é fundamental que os desfechos de eficácia estejam no centro da análise”, observa Veloso, avaliação com a qual o convidado concorda.
Em síntese, o episódio 32 do Conexão Cabeça e Pescoço mostra que o MC1675 representa um avanço importante na discussão sobre personalização do tratamento adjuvante em tumores de orofaringe HPV-associados. A de-escalada da radioterapia surge como uma estratégia promissora para pacientes cuidadosamente selecionados, com potencial de reduzir morbidade sem perda de controle da doença, mas ainda distante de ser aplicada de forma indiscriminada na prática clínica.
O papo completo está disponível em episódio do Conexão Cabeça e Pescoço, o podcast, em formato de pílulas, do GBCP.
OUÇA O PODCAST
Referência do estudo
Ma D, Price K, Moore E, Patel S, Hinni M, Routman D, Fruth B, Foster N, Van Abel K, Yin L, Neben-Wittich M, Garces Y, McGee L, Lester S, Rwigema JC, Holtzman A, Price D, Janus J, Kasperbauer J, Chintakuntlawar A, Garcia J, Foote R. De-escalated adjuvant radiotherapy versus standard adjuvant treatment for human papillomavirus-associated oropharyngeal squamous cell carcinoma (MC1675): a phase 3, open-label, randomised controlled trial. Lancet Oncol. 2025 Sep;26(9):1227-1239.
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