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Inteligência Artificial: uma aliada ou um perigo para o oncologista clínico?

  • Foto do escritor: gbcpcomunicacao
    gbcpcomunicacao
  • 30 de set.
  • 5 min de leitura

A Inteligência Artificial (IA) é uma ferramenta que ganha espaço em todas as profissões e a do médico oncologista clínico não é a exceção. Sobre isso, conversamos com o Dr. Marcelo Malandrino de Albuquerque Felizola, da Oncologia D'Or e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP).


Dr. Marcelo Malandrino de Albuquerque Felizola

 

Confira a entrevista a seguir.


Como a Inteligência Artificial tem impactado a oncologia clínica?

Em minha opinião, a IA ajuda tanto o médico como o paciente. Ficou mais fácil para o paciente com a IA ter acesso à informação estruturada. Nem sempre, porém, ao pesquisar ele irá conseguir  informações específicas do seu caso, mas tem sido cada vez mais comum o paciente chegar à consulta já com uma boa ideia do seu diagnóstico e das possibilidades de tratamento. Já para nós, médicos, a IA tem se mostrado uma importante ferramenta de auxílio em tarefas mais burocráticas. Também na pesquisa sobre novidades e atualizações em minha área. É ótima para agilizar a triagem inicial do que faz sentido uma leitura mais profunda. Outro exemplo são aplicativos voltados ao atendimento e acompanhamento ao paciente, como o  que usamos na Rede D’Or.

 

Como funciona esse aplicativo?

Os pacientes baixam e se cadastram no aplicativo e têm uma série de facilidades. Por exemplo, um paciente que está em quimioterapia e apresenta algum sintoma, comunica isso no aplicativo. Automaticamente, um aviso vai para uma equipe de Enfermagem, que faz a primeira triagem. Ele pode orientar o paciente ou entrar em contato com o médico se for necessário nossa intervenção. Além disso, pelo aplicativo o paciente consegue marcar consultas e visualizar de modo organizado todos os seus agendamentos. Com a eficiência do aplicativo, que tem sido continuamente aperfeiçoado e ampliado em termos de funcionalidades, os pacientes ficam menos dependentes do WhatsApp, que é um dos meios de comunicação mais utilizados, mas que perde em organização em relação ao aplicativo. Os pacientes continuam a ter nosso celular, mas o aplicativo facilita que eles organizem suas jornadas e tenham agilidade nas informações. O feedback dos pacientes que usam o aplicativo tem sido positivo.

 

Como você usa a IA em seu dia a dia?

Em meu dia a dia, uso a IA para fazer relatórios e requerimentos que preciso enviar para convênios médicos. Para isso, ensinei a IA a produzir esses documentos do meu jeito. Eu forneço os dados básicos e a IA estrutura e coloca as referências. Naturalmente, preciso revisar o conteúdo porque, às vezes, a IA comete erros. Mas esta primeiro versão já agiliza muito meu trabalho e ganho tempo em meu dia. Além disso, é uma ferramenta que me ajuda a desenvolver minhas ideias, faço uma espécie de brainstorming com a IA, seja para uma aula que preciso dar ou um material que preciso produzir. Também acho útil para criar imagens que não são encontradas facilmente.

 

Qual o segredo para fazer bom uso da IA?

Acho que o principal é saber perguntar e tomar cuidado se as fontes utilizadas são confiáveis. A IA pode dar referências iniciais sobre assuntos, mas nunca substituir o estudo. É uma ferramenta muito interessante para dar o pontapé inicial e você ter uma ideia sobre um tema, as mudanças e atualizações de algum assunto. Mas se você fizer uma pergunta geral sobre câncer de cabeça e pescoço, ela vai retornar com o básico, talvez a definição da Wikipédia. Já se você elabora uma questão sobre carcinoma da orofaringe, HPV relacionado, estágio 3, a resposta será mais específica, com base em fontes científicas.

 

Nesse caso, vale dizer que leigos em oncologia podem incorrer em erros ao pesquisar na IA?

Sem dúvida, isso é comum. Pacientes e familiares não costumam ter o conhecimento aprofundado para fazer a pergunta correta. Caso ele tenha uma metástase de neoplasia de cabeça pescoço no pulmão, é comum que ele busque por “câncer de pulmão” porque não sabe que mesmo sendo uma evolução para esse órgão, a doença continua a ser de cabeça e pescoço. Ou seja, a pesquisa começou com uma pergunta equivocada e a resposta da IA não fará sentido para o tipo de câncer que ele tem. Isso também pode acontecer comigo que sou médico oncologista clínico, se precisar pesquisar algo fora de minha área, como um assunto cirúrgico. Provavelmente, não vou saber perguntar aquela nuance que eu preciso.

 

Então, essa pesquisa prévia que o paciente ou familiar faz na IA é prejudicial?

Não necessariamente. Varia muito. Em geral, o paciente chega ao consultório mais bem informado do que no passado. Há situações em que ter acesso a informação sobre a doença antes da consulta contribui para diminuir a ansiedade. Mas há casos em que  o acesso à  informação é mais prejudicial do que benéfico. Às vezes, ele tem uma doença inicial com alta chance de cura e acaba recebendo dados sobre o mesmo tipo de câncer só que em um quadro avançado em que a sobrevida é menor. Esse paciente passa por um estresse desnecessário.

 

E de forma mais ampla, qual sua avaliação sobre a IA na oncologia clínica?

Acredito que o uso de IA tem sido positivo em atividades que vão desde a monitorização de pacientes até a compilação de grandes volumes de dados. Com a IA é possível estruturar informações de maneira muito ágil, livrando o médico ou outro profissional de saúde de um trabalho braçal que levaria muito do seu tempo. Isso não é um benefício só para o cotidiano da assistência. Estudos translacionais, retrospectivos e de análise também se beneficiam. Um exemplo:  a IA pode auxiliar no desenvolvimento de drogas-alvo para tumores determinados, agilizando todo o processo de engenharia e análise de dados.

 

Você acha que a IA pode tomar espaço do médico ao substituir muitas de suas funções?

Como oncologistas clínicos, nossa atuação difere, por exemplo, do perfil de um médico cirurgião que precisa ter, além do conhecimento sobre sua área, uma habilidade manual que, acredito, não pode ser substituída totalmente por uma tecnologia, mesmo a robótica. Já o médico oncologista clínico toma decisões com base em conhecimento científico. Então, teoricamente, se eu abastecer a IA com esse conhecimento e ensiná-la a raciocinar como um oncologista, suas conclusões poderão ser parecidas com a desse profissional. Porém, vejo esse cenário como um auxílio e não como uma substituição, lembrando que no caso da tecnologia tudo é padronizado. Dentre as funções do médico oncologista há o manejo fino dos efeitos colaterais, as expectativas do paciente e da família e muitas outras questões subjetivas, como a terminalidade de uma doença grave, que a IA não tem como compilar. Não vejo como esse tipo de abordagem humana possa ser substituída pela tecnologia.

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