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Novas diretrizes ampliam as possibilidades de prevenção do câncer de cabeça e pescoço com protocolos para uso da vacina HPV

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    gbcpcomunicacao
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

O GBCP e mais cinco sociedades e associações médicas estabeleceram, em consenso, os protocolos para uso da vacina HPV na prevenção e pós-tratamento do câncer de cabeça e pescoço. Um marco para a oncologia.

 

Dra. Fátima Matos

Um passo importante acaba de ser dado pela oncologia de cabeça e pescoço no Brasil. Seis sociedades médicas reunidas realizaram um consenso para elaborar o protocolo de diretrizes da vacinação nonavalente contra o HPV (vírus do papiloma humano) como preventivo do câncer de cabeça e pescoço. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) incluiu o imunizante em bula como estratégia de prevenção desse tipo de câncer no final de dezembro de 2025.


Com isso, o laboratório fabricante obteve autorização para atualizar a bula da vacina, incluindo o câncer de cabeça e pescoço na lista de doenças oncológicas — junto aos tumores de colo de útero, vulva, vagina e ânus — que já eram reconhecidos formalmente preveníveis pela vacinação contra o HPV.


Representante no consenso e vice-presidente do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP), a Dra. Fátima Matos afirmou que "com o consenso, o Brasil deu um salto importante na prevenção de tumores HPV-induzidos em cabeça e pescoço".


Sob a coordenação da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia (ABPTGIC), participaram do consenso, além do GBCP, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM), a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP).


Um vácuo na literatura científica em relação ao HPV


Segundo a Dra. Fátima, a liberação da Anvisa e a realização do consenso foram de extrema importância para preencher um vácuo na literatura científica brasileira. Na prática, isso trouxe algumas mudanças imediatas em relação à vacina contra o HPV:


  •     Indicação oficial para a prevenção de tumores de cabeça e pescoço.

  • Segurança jurídica para a prescrição, pelos médicos, da vacina como preventivo de câncer.

  • Reconhecimento científico, uma vez que existem estudos que comprovam a eficácia e a segurança da vacina na prevenção do câncer de cabeça e pescoço.


O que já sabemos


De acordo com a vice-presidente do GBCP, estudos científicos já revelaram informações significativas sobre o HPV e o câncer de cabeça e pescoço: 57% dos tumores de orofaringe no Brasil estão associados ao HPV; a vacina nonavalente reduz em aproximadamente 80% a probabilidade de infecção oral pelo HPV.


O papel do HPV no câncer de cabeça e pescoço está cada vez mais documentado. A região mais acometida é a orofaringe, onde estão as amígdalas, a base da língua, a parede posterior da faringe e parte do palato. "Isso acontece porque a orofaringe oferece ao vírus um ambiente úmido, quente, com múltiplas criptas e tecido linfoide abundante – condições ideais para a infecção. Além disso, infecções repetidas desencadeiam um processo inflamatório crônico que, ao longo do tempo, pode resultar em câncer", explica a especialista. Além da orofaringe, outras sub-regiões também podem ser  afetadas (a nasofaringe, os seios paranasais, a laringe e a cavidade oral) . O HPV 16 é o subtipo responsável por aproximadamente 80% a 90% desses tumores.


Outro fato que merece destaque é que, diferentemente do câncer de colo do útero – que conta com o Papanicolau para detectar lesões pré-malignas com eficiência –, não existe método equivalente para a orofaringe. A complexidade anatômica da região impede o diagnóstico de lesões precursoras. "Diante dessa limitação, a vacinação assume papel ainda mais central na estratégia de prevenção", pondera a Dra. Fátima.


Vias de transmissão do HPV


Diferentemente do que muitos pensam, o HPV é um vírus muito comum e pode ser transmitido não apenas por relação sexual, mas também por beijo, contato com saliva.


Estudos mostram que o HPV pode estar presente até no líquido amniótico. "O preservativo oferece proteção parcial, mas não é suficiente para prevenir a infecção pelo HPV de maneira efetiva. Portanto, mais um fator corrobora a vacinação como única forma de proteção realmente eficaz. Ela protege não só contra cânceres anogenitais, mas também contra cânceres de garganta, boca e pescoço", ressalta.


A vacina quadrivalente, disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) e na rede privada, protege contra os subtipos 6, 11, 16 e 18 do HPV, sendo o 16 e o 18 cancerígenos. A vacina nonavalente (Gardasil 9) ampliou essa cobertura, incluindo também os subtipos 31, 33, 45, 52 e 58, que aumentam o risco para câncer de cabeça e pescoço (orofaringe, amígdala, base da língua e faringe) e para os cânceres de colo de útero, ânus, vulva, vagina e pênis.


Eficácia da vacina


A vacina é mais eficaz quando aplicada antes do primeiro contato sexual, razão pela qual a vacinação na adolescência ( meninos e meninas entre 9 e 14 anos) continua sendo a melhor estratégia. Mas, de acordo com o protocolo, a vacinação traz benefício comprovado mesmo após o início da vida sexual. Diretrizes europeias e a própria Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIM) não impõem limitação etária rígida, deixando a decisão a critério do médico do paciente. "Sabemos que a indicação para pacientes mais velhos traz benefícios, principalmente, diante do aumento de tumores HPV-positivos em pessoas acima de 70 anos", informa a Dra. Fátima.


Principais diretrizes do consenso


Entre as indicações para câncer de cabeça e pescoço estão:


  •   Prevenção primária de cânceres de orofaringe, nasofaringe, laringe e cavidade oral associados ao HPV para pacientes de até 45 anos de idade.

  • Tratamento adjuvante (após o tratamento principal) da papilomatose laríngea recorrente, causada pelos subtipos 6 e 11. Uso autorizado desde os 2 anos de idade.

  • Pacientes com doença oncológica estabelecida: a vacinação pós-tratamento (a partir de 3 meses, conforme cada caso) protege contra recidiva e já está no calendário vacinal da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

  • Grupos especiais: indicação para pacientes com HIV positivo e vítimas de violência sexual.

     

Na avaliação da Dra. Fátima, o consenso também trouxe um benefício prático para os profissionais da área. Por exemplo, a integração com ginecologistas e coloproctologistas ampliou o olhar clínico dos cirurgiões de cabeça e pescoço sobre o HPV como fator sistêmico. "Em resumo, já está cientificamente comprovado que o HPV é um fator de risco importante para o câncer de cabeça e pescoço em várias regiões do organismo humano, e a vacinação é a nossa melhor ferramenta de prevenção", concluiu a especialista.


Acesse aqui o documento do consenso

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