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Um novo olhar sobre o papel da assistência social na equipe multidisciplinar no contetxo do paciente oncológico

  • Foto do escritor: gbcpcomunicacao
    gbcpcomunicacao
  • há 2 horas
  • 6 min de leitura

A assistência social ganha cada vez mais importância no contexto do paciente oncológico. É esse profissional que acolhe, escuta e compreende o contexto desses pacientes, que apresentam diferentes níveis de vulnerabilidade


 Débora Eduarda Ferreira

A assistente social Débora Eduarda Ferreira faz parte da equipe multidisciplinar que atua, entre outros, nos cuidados de pacientes com câncer de cabeça e pescoço. 


Confira abaixo a nossa entrevista com ela.


Qual é o papel da assistência social na equipe multidisciplinar?

Somos tão importantes quanto os demais membros da equipe — médico, enfermeiro, farmacêutico nutricionista, fonoaudiólogo, entre outros. Em geral, os serviços de oncologia bem estruturados contam com o assistente social, que é  o responsável pelo primeiro contato do paciente com a instituição. Acolhemos e temos uma escuta atenta para entender o paciente dentro de sua realidade e contexto.

 

Como você faz isso na prática?

Por exemplo,  explico o passo a passo do paciente no serviço – chegada, consulta, guichês. Presto atenção  ao estado emocional, se ele está com acompanhante, entendo as dificuldades de acesso. Ficamos em Belo Horizonte, mas atendemos pacientes pelo SUS de todo o estado de Minas Gerais. O perfil de nossos pacientes é diverso. Há pacientes da capital e da zona rural, com diferentes graus de dificuldades de  acesso. Já no primeiro contato, observo essa questão e muitas outras. Identifico aspectos de vulnerabilidade e de maior dificuldade. E com base em informações como essas que traço minha forma de acompanhamento. Se preciso acompanhar mais de perto ou de maneira mais espaçada, se há necessidade de sinalizar ao município ou a algum órgão assistencial. Não conseguimos acompanhar todo mundo de perto, então nesse primeiro contato preciso fazer uma espécie de triagem e definir qual é o grau de assistência que cada paciente precisa para viabilizar seu tratamento. Assim, começo a construir um vinculo com ele e a família.

 

Quais são as principais em relação aos pacientes?

Em minha opinião, ainda estamos lidando com reflexos da pandemia da Covid-19. Hoje recebemos pacientes com diagnósticos mais avançados do que antes da  pandemia porque houve uma pausa geral na saúde. Por medo de ser infectado pela Covid-19,  pacientes com sintomas não procuraram atendimento ou, quando procuraram, não houve investigação adequada Uma de nossas dificuldades é correr atrás disso: pacientes com diagnóstico avançado que precisam avançar em seus exames, mas temos dificuldades de acesso. São muitos pacientes para poucos recursos. É difícil fazer uma tomografia no tempo hábil para estadiar a doença e começar o tratamento. Também temos poucos leitos para muitos pacientes. Também lido com dificuldade de compreensão. Se o paciente, cuidador ou acompanhante não entende a urgência oncológica, não conseguimos avançar. Podemos  movimentar todos os setores do hospital, mas se o paciente não comparece ao exame de imagem, à biópsia ou no dia da internação, todo o esforço foi em vão. Precisamos da adesão do paciente a seu tratamento.

 

E quanto ao paciente com câncer de cabeça e pescoço? Existe alguma especificidade em relação a adesão tratamento?

Sim. A maioria é etilista e tabagista e nem sempre conta com suporte e rede de apoio  adequados.  Convencer esse paciente a vir 30 dias seguidos para radioterapia é quase impossível. Outro dificuldade é a mudança de hábito em relação ao tabagismo e etilismo. Muitos carregam esse vício há mais de 20 ou 30 anos e não conseguem ou não querem parar. Esse perfil se repete independentemente de o paciente ser da capital ou do interior. Também temos dificuldade de adesão quando é necessário o uso de dispositivos, por exemplo, sonda para alimentação devido a quadro de desnutrição ou necessidade de melhoria nutricional.

 

 

Como acontece o acesso a serviços no sistema público?

Trabalho em contato com secretarias municipais de saúde, centros de saúde agentes comunitários de saúde. Também temos o Tratamento Fora do Domicílio (TFD), um benefício do SUS, criado para garantir ao paciente, transporte, hospedagem e alimentação para fazer consultas, exames e cirurgias de média e alta complexidade em outra cidade ou estado. A legislação determina que o município deve garantir esses benefícios a pacientes que residem a mais de 50 quilômetros do local do tratamento. No entanto, há muitos benefícios pequenos, com muitos pacientes,  que não conseguem arcar com esses custos.

 

E como fica a situação do paciente que precisa dos recursos do TFD?

Nós tentamos amenizar o problema por meio de parcerias com ONGs aqui na capital. Muitas vezes, as ONGs têm casas de apoio. Quando tenho o plano de tratamento do paciente, entro em contato com a secretaria municipal de saúde onde o paciente reside. Se não há possibilidade de obter recursos da autoridade local, fazemos contato com ONGs da capital com as quais temos relacionamento. Algumas delas têm casas de apoio,  transporte e até alimentação. São cerca de sete ONGs aqui em Belo Horizonte voltadas ao paciente oncológico — algumas para crianças e outras para adultos. Se consigo os recursos, aviso  a secretaria municipal de saúde  que fica responsável pela interface com a ONG. Mas evidentemente que o cenário ideal seria que todos os municípios tivessem como arcar com os custos de acordo como determina o TFD.

 

A instituição onde você trabalha é pública? Quais recursos têm disponíveis para o paciente oncológico?

Somos uma instituição filantrópica, ou seja, sem fins lucrativos, e atuamos em parceria com o SUS. Nosso serviço de oncologia é credenciado como  CACON (Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia), oferecendo atendimento integral. Temos cirurgiões oncológicos, oncologistas, equipe multidisciplinar, radioterapia, quimioterapia e transplante de medula óssea. Não temos PET-CT, braquiterapia e iodoterapia. Para braquiterapia ginecológica, temos parceria com o Hospital São Francisco. No caso do PET-CT há apenas dois serviços públicos que têm esse exame para atender todos os CACONs. Quando a fila de espera é grande e o paciente tem urgência, acionamos as ONGs, que têm parcerias com clínicas que conseguem o exame sem custo ou com desconto. O mesmo acontece com a iodoterapia.

 

E no caso de pacientes de câncer de cabeça, o tratamento é completo?

Além  recursos disponíveis que já elenquei, temos cirurgião de cabeça e pescoço e OPME (Órteses, Próteses e Materiais Especiais).

 

Como é o contato da assistência social com os médicos e demais integrantes da equipe multidisciplinar?

Atuamos de modo muito integrado. Chamamos nossas reuniões de round.  Elas acontecem duas vezes por semana para conversarmos sobre pacientes internados. Discutimos questões de  vulnerabilidade, problemas identificados precocemente ou com mais de cinco dias de internação. Também falamos de pacientes com perspectiva de desospitalização para traçarmos um plano individualizado. Se o paciente usa algum  dispositivo — gastrostomia, por exemplo — a fisioterapia reforça o treinamento da família. Eu faço contato com ONGs para conseguir aspirador. Ligo no posto de saúde para  que liberarem sonda e luvas para os cuidados do paciente em casa. Cada um faz sua parte para que o paciente tenha uma alta segura. No caso de um paciente em cuidados paliativos, em processo de finitude, que a família quer levar para casa. Precisamos avaliar onde ele mora; se o processo ativo de morte será bem assistido; se a família tem recursos emocionais, financeiros e de suporte para cuidar do paciente. Avaliamos e chegamos a um consenso e trazemos a família para a conversa.

 

E para os pacientes ambulatoriais?

No ambulatório, os encontros acontecem por linha de cuidado: cabeça e pescoço, mama, pulmão e assim por diante. A equipe multidisciplinar discute e traz informações de cada paciente para traçar plano de cuidado. Identificamos o que acompanhar, classificamos grau de urgência e vulnerabilidade, e cada profissional da equipe acompanha dentro de sua competência.

 

 

E como você faz para saber sobre todos esses aspectos do contexto do paciente?

Conversamos com a família, mas às vezes ela não é clara ou esconde alguma informação. Por isso, precisamos conversar também com pessoas responsáveis no posto de saúde,  na escola, no trabalho do paciente. Dessa forma, conseguimos ter um quadro mais próximo da realidade do paciente para termos segurança no processo de desospitalização e transição de cuidados, por exemplo.

 

Qual é sua percepção sobre a visão que se tem hoje sobre o trabalho da assistente social dentro de uma instituição de saúde oncológica?

Acho que a presença do assistente social dentro da equipe multidisciplinar está cada vez mais valorizada. Também os pacientes têm um novo olhar sobre nossa atuação, entendendo que estamos lá para dar suporte e contribuir para empoderá-los em relação aos  cuidados com sua saúde. Isso pode acontecer por meio de informação, aprendizados e suporte para que consigam os recursos necessários ao tratamento. Não lidamos mais com aquela visão de que somos moças ou moços bonzinhos que entregam cestas básicas a quem precisa. Essa mudança, que foi acontecendo ao longo dos anos, nos motiva ainda mais a realizar nosso trabalho.

 

 

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