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Psicologia e câncer de cabeça e pescoço: o suporte na jornada do paciente

Foto do escritor: gbcpcomunicacao
gbcpcomunicacao
há 6 horas
7 min de leitura

Os enfrentamentos vivenciados pelo câncer de cabeça e pescoço interferem no bem-estar físico e psicológico tanto do paciente quanto de sua família.


Dra. Mônica Cristina Batista de Melo

O impacto do diagnóstico de um câncer na região da cabeça e do pescoço vai muito além da saúde física do paciente. A localização, a extensão, os sinais e os sintomas, assim como os efeitos colaterais da radioterapia, da extensão da cirurgia e/ou de outros tratamentos complementares podem resultar em “ganhos e perdas”, inclusive de funcionalidades, como a capacidade de se alimentar pela boca ou de se comunicar pela fala. Além disso, a cirurgia pode resultar em sequelas visíveis na região da face, lugar onde os contornos e as singularidades de cada pessoa são revelados e registrados tanto na forma de identidade como atributo de interação socioafetiva.


Os enfrentamentos vivenciados pelo câncer de cabeça e pescoço interferem no bem-estar físico e psicológico tanto do paciente quanto de sua família. Para entender o papel do suporte emocional nessa jornada, conversamos com a Dra. Mônica Cristina Batista de Melo, psicóloga clínica especialista em psicologia hospitalar e com longa trajetória na oncologia. Ela detalha como preparar o paciente para o curso do tratamento que poderá abranger desde as mudanças na imagem corporal, como possíveis sentimentos de culpa, uma vez que, culturalmente, se sabe que algumas dessas patologias têm sua origem em comportamentos tais como fumar e consumir álcool.


Confira!


Quais são os principais desafios que o paciente de câncer de cabeça e pescoço pode enfrentar?

Os desafios começam no diagnóstico. Por exemplo, se o paciente é fumante e consome álcool – principais fatores de risco para câncer de cabeça e pescoço –, frequentemente o diagnóstico vem acompanhado de um sentimento de culpa. O desafio seguinte são as consequências do tratamento cirúrgico que, na maioria das vezes, provocam sequelas estéticas visíveis, podendo impactar na identidade social do paciente. A cirurgia também pode comprometer funcionalidades do corpo. Um tumor na pálpebra, na pele, na boca ou na língua pode afetar expressões, contornos faciais, a comunicação e a qualidade da voz e da fala.


Mas e as cirurgias de reconstrução?

Mesmo com cirurgias de reconstrução, é muito difícil o paciente voltar ao que era antes do câncer. Portanto, ele precisará lidar com o momento do diagnóstico, o processo de tratamento e o curso elaborativo referente aos aspectos intrínsecos, ao visível da aparência e à marca do estigma de câncer propagado culturalmente. Lembrando que alguns tumores de laringe, língua e mandíbula podem comprometer a aparência da face, e isso não se pode esconder, demandando enfrentamentos quanto à aceitação, à autoestima, à interação social e à vivência emocional ao longo da vida.


Quais são as consequências emocionais para esses pacientes?

Elas variam de uma pessoa para outra. Alguns passam a sentir irritabilidade. Há os que ficam revoltados por causa da dor, dos processos de adaptação, do curso e das variações no tratamento e dos constrangimentos vividos. Por exemplo, o fato de entrar em um transporte público ou em outros lugares públicos, como shopping, eventos religiosos, sociais ou laborais e perceber olhares curiosos e comportamentos evitativos. O paciente de câncer de cabeça e pescoço tem um risco aumentado de desenvolver depressão e ansiedade.


Em que momento o psicólogo entra no apoio desses pacientes?

O ideal é que o psicólogo comece a trabalhar com esse paciente já no momento do diagnóstico. Desde esse momento, precisamos facilitar a elaboração de estratégias de enfrentamento personalizadas para cada caso e realidade. É um trabalho conjunto entre paciente, psicólogo e demais profissionais da equipe. Nesse processo, o envolvimento da família é muito importante.


Qual é o papel da família?

Podemos dizer que tratamos o paciente e a família. Quando é possível fazer isso, os resultados são muito bons. Mas as famílias não são iguais. Há as que se envolvem positivamente no processo e outras, infelizmente, que são complicadoras. A família, assim como pessoas próximas do paciente, tornam-se complicadoras quando começam a apontar culpados, por exemplo: “Eu falei que beber ia dar problema”, “Você fumava muito” ou, no caso do câncer de pele, “Você tomou muito sol”. E para além desses aspectos, algumas pessoas não estão amadurecidas e/ou com disponibilidade suficiente para o cuidado com o outro. Seja por impossibilidades reais ou emocionais.


Durante o tratamento de radioterapia, por exemplo, já lidei com casos em que os familiares separaram pratos, copos e talheres do paciente, com a crença equivocada de que poderiam ser contaminados pela radiação. Às vezes, até o médico diz que ele fumou a vida inteira e que isso contribuiu para o desenvolvimento do câncer. Todos esses comportamentos contribuem para aumentar o sentimento de rejeição e culpa do paciente. Com a culpa, pode vir a autopunição, e o paciente ficar resignado e aceitar qualquer sofrimento. Ou pode desenvolver e ampliar somatizações. Isso é tudo o que não queremos; afinal, precisamos que ele seja proativo e que se engaje no tratamento. A adesão é um fator muito importante nesse processo.


Para a família, o que seria um comportamento ideal?

A família precisa caminhar ao lado do paciente. É aquela família interessada em saber o que deve fazer, como pode ajudar e que fala das suas próprias dificuldades. Tive o caso de uma esposa que conversou comigo sobre não saber como falar para o marido que não queria dormir no mesmo quarto e que tinha dificuldades em olhar para ele. Eu propus que fosse criado um momento para que ela falasse para o marido sobre seus enfrentamentos. É em momentos como esses que se consegue atuar para que se possa ressignificar percepções, sentimentos e incentivar novos entendimentos sobre a situação. Mas isso só é possível se criarmos um espaço onde as coisas possam ser ditas e ouvidas.


Como é sua atuação antes da cirurgia?

O primeiro passo é saber o que o paciente pensa que vai acontecer: se o médico falou da cirurgia e qual é a expectativa dele em relação ao resultado. Também investigo quais as fantasias do paciente com relação ao que está vivenciando. Preciso entender o perfil e a personalidade e, depois, de acordo com o seu repertório, avanço para questões sociais e afetivas. Conforme cada paciente e o avanço de nosso trabalho, estimulo a busca de alternativas, exercitando seu repertório de mecanismos de defesa para que ele pense e verbalize o que há de negativo, de positivo e de inexplicável no que está vivenciando.


Muitas vezes, preciso trabalhar com o paciente as informações que ele ouve em salas de espera e em outras situações. É comum ele ouvir de outro paciente, por exemplo, sobre os fortes efeitos colaterais da radioterapia e achar que sentirá o mesmo. Ele precisa entender que cada paciente é único e que os efeitos colaterais não são padrão para todos. Posso abrir a conversa perguntando: “Mas no seu organismo, será que será assim?”. Por isso, é importante ampliar o repertório do paciente para que ele fique menos ansioso. Assim, quando chegar o momento da cirurgia, da radioterapia e/ou de outro tratamento proposto, ele já esteja mais familiarizado com suas hipóteses, seus medos e suas esperanças e se sinta preparado.


E depois da cirurgia?

O pós-cirúrgico envolve curativos, cuidados, disciplina, e o paciente fica sensível à sua imagem corporal. Cicatrizes e alterações corporais não são naturalizadas. É o momento de elaborar com o paciente a realidade de como ele está diante de como ele imagina que se percebe e está. Em geral, ele ainda não se olhou no espelho, não se tocou.


Nesse caso, antes que ele faça isso, eu preciso tentar prepará-lo. No pós-cirúrgico, pode acontecer que ele esteja com edemas e, talvez, nem consiga identificar em sua imagem no espelho o contorno do rosto ou da área afetada. Aos poucos, por meio dos atendimentos, vou conduzindo seu contato e sua integração com sua nova realidade.


Ao ter contato com sua imagem após a cirurgia, como costuma ser a reação do paciente?

Não podemos generalizar porque a reação é diferente para cada paciente. Há os que estão com tanto medo que se recusam a pensar e a enfrentar a situação, caracterizando um processo de negação. Nesse caso, posso usar estratégias como pedir para ele usar a imaginação, propondo que pense como se fosse outra pessoa, como o personagem de um filme, e elabore como ela agiria diante da situação. Dessa forma, protegemos um pouco o paciente e o conduzimos até que ele possa estar em condições de lidar com a sua realidade.


E, a depender da área afetada, esse processo ocorre simultaneamente e de forma dinâmica, como se aquela condição fosse a protagonista do processo de autoconhecimento e adaptação, como nos casos de tumores na língua, por exemplo. Na outra ponta, está aquela pessoa que consegue enfrentar a situação supostamente com mais facilidade. Mas a tristeza e a dificuldade, em alguma medida, sempre estão presentes.


A psicologia interage com a equipe multidisciplinar?

Sem dúvida. A interprofissionalidade é essencial nesse cuidado. O paciente com câncer de cabeça e pescoço necessita de um suporte amplo: além do cirurgião, do radioterapeuta e do oncologista clínico, ele precisa do apoio de profissionais da nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, do serviço social e outros. Há situações em que também é necessário o acompanhamento de um psiquiatra. A psicologia atua em total sintonia com toda essa equipe, interagindo tanto de maneira formal – em reuniões periódicas para apresentação e discussão de casos – quanto por meio de um contato informal e próximo entre os profissionais.


A psicologia ajuda na reintegração profissional desse paciente?

Falamos muito sobre conceitos de produtividade e alternativas. A possibilidade de voltar ao trabalho depende do porte e do tipo da cirurgia. O tumor de cabeça e pescoço vai desde um carcinoma basocelular na orelha ou no couro cabeludo, que talvez não deixe sequelas, até cirurgias maiores, em que há grande comprometimento funcional. Quando isso acontece, a reintegração ao trabalho é mais difícil.


Há algum tempo, atendi um senhor que trabalhava como caminhoneiro e era o provedor da família. Ele entrou em pânico com a possibilidade de não poder voltar à sua atividade. Ele teve um tumor grande na língua, com cirurgia extensa, e não conseguia falar. Voltar para a atividade de caminhoneiro não era possível naquele momento. Discutimos muito, nos atendimentos, sua realidade, até que sugeri a possibilidade de que ele vendesse o caminhão e investisse o dinheiro em outra atividade. Ele estranhou, mas, como resultado de conversas entre a família, vendeu o veículo e abriu um mercado no bairro. Como ele dizia: “Passei de caminhoneiro a empresário”.


Mas também tive o caso de um paciente muito difícil, submetido a uma laringectomia. Ele precisou de traqueostomia e perdeu a voz. Antes da cirurgia, era uma pessoa que falava bastante, extrovertido e carismático. Tudo mudou depois das sequelas da cirurgia. Ele ficou muito revoltado, descrente e sem esperança. No início, durante as sessões, ele constantemente me confrontava. Fiquei muito preocupada com o fato de ele passar a andar armado. Em parceria com a família e a fonoaudiologia, sempre muito próximas, o trabalho acabou dando resultado. O percurso foi longo e difícil, mas o paciente foi superando as dificuldades e ficou bem.


A psicóloga que deseja atuar com pacientes oncológicos, especialmente de cabeça e pescoço, precisa de uma formação especial?

O caminho natural é a especialização em psicologia da saúde ou psicologia hospitalar. Essas especializações não trazem qualquer conteúdo específico de oncologia, e nós precisamos aprender com leitura, com estudo sobre psico-oncologia e na prática. Por isso, é importante que a especialização tenha uma carga horária prática, com a possibilidade de atuar em oncologia e, para quem desejar, no setor de câncer de cabeça e pescoço.



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