Vacina contra HPV pode prevenir câncer de orofaringe e outros tumores relacionados ao vírus
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O HPV é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais frequentes no mundo. Estima-se que entre 80% e 90% das pessoas sexualmente ativas terão contato com o vírus em algum momento da vida.

O episódio 36 do Conexão Cabeça e Pescoço, podcast em formato de pílulas do Grupo Brasileiro de Câncer de Cabeça e Pescoço (GBCP), é um especial realizado para o Julho Verde, campanha de conscientização do câncer de cabeça e pescoço, e discute o papel da vacinação contra o HPV na prevenção de diversos tipos de câncer, com destaque para os tumores de cabeça e pescoço relacionados ao vírus.
Com mediação da cirurgiã de cabeça e pescoço Dra. Fátima Matos, o episódio recebe como convidado o pediatra infectologista Dr. Renato Kfouri, mestre pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), secretário do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), para esclarecer dúvidas sobre a infecção, a vacina e os desafios para ampliar a cobertura vacinal.
HPV e câncer de orofarige
O HPV é uma das infecções sexualmente transmissíveis mais frequentes no mundo. Estima-se que entre 80% e 90% das pessoas sexualmente ativas terão contato com o vírus em algum momento da vida. Na maioria dos casos, o próprio sistema imunológico elimina a infecção, mas, quando ela persiste, aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo colo do útero, pênis, vagina, vulva, ânus e orofaringe. Durante o episódio, Renato Kfouri destaca que a vacinação representa uma das poucas estratégias capazes de prevenir diretamente diferentes tipos de câncer por atuar na prevenção da infecção persistente pelo HPV.
Um dos principais pontos abordados é a mudança no perfil epidemiológico dos tumores de cabeça e pescoço. Enquanto tradicionalmente esses cânceres estavam associados principalmente ao tabagismo e ao consumo excessivo de álcool, cresce de forma consistente a proporção de tumores de orofaringe relacionados ao HPV, especialmente ao subtipo HPV-16. Segundo a discussão, nos Estados Unidos aproximadamente 80% dos casos de câncer de orofaringe já estão associados ao vírus. No Brasil, estudos apontam uma participação em torno de 50%, tendência que deve aumentar nos próximos anos.
Os especialistas também explicam que, diferentemente do câncer do colo do útero, que dispõe de programas de rastreamento capazes de identificar lesões precursoras antes do desenvolvimento do tumor, não existem exames de triagem recomendados para detectar precocemente lesões por HPV na orofaringe. Essa característica torna a prevenção por meio da vacinação ainda mais relevante para reduzir a incidência desses tumores.
Outro aspecto discutido é a transmissão do HPV. Embora o uso do preservativo permaneça fundamental para reduzir o risco de diversas infecções sexualmente transmissíveis, sua proteção contra o HPV é parcial, uma vez que o vírus pode ser transmitido pelo contato direto entre pele e mucosas, mesmo sem penetração. Ao mesmo tempo, os especialistas esclarecem que o vírus não sobrevive por tempo suficiente no ambiente para justificar preocupação com transmissão por objetos como vasos sanitários, pias ou escovas de dentes, um dos mitos frequentemente associados ao HPV.
Durante o episódio, Renato Kfouri detalha as recomendações atuais do Programa Nacional de Imunizações. A vacinação é oferecida rotineiramente para meninas e meninos de 9 a 14 anos e, excepcionalmente, contempla uma estratégia de resgate para adolescentes e jovens de 15 a 19 anos que ainda não receberam a dose recomendada. O especialista ressalta ainda que o Ministério da Saúde ampliou a oferta da vacina para grupos com maior risco de infecção persistente, incluindo pessoas vivendo com HIV, pacientes imunossuprimidos, transplantados, pacientes oncológicos, usuários de PrEP, vítimas de violência sexual, pessoas com papilomatose respiratória recorrente e mulheres submetidas ao tratamento de lesões precursoras ou câncer do colo do útero.
A conversa também aborda evidências recentes sobre os benefícios adicionais da imunização. Estudos mostram que a vacinação reduz significativamente o risco de recorrência de lesões precursoras do câncer do colo do útero após tratamento cirúrgico e tem contribuído para a redução da papilomatose respiratória recorrente em crianças nos países com elevada cobertura vacinal. Os participantes destacam ainda os resultados obtidos em nações que iniciaram precocemente programas universais de vacinação, com reduções expressivas na incidência de infecção pelo HPV e de câncer do colo do útero entre mulheres jovens.
Outro tema enfatizado é a segurança da vacina. Segundo Renato Kfouri, mais de 77 milhões de doses já foram aplicadas no Brasil, consolidando um amplo histórico de segurança e eficácia. O especialista alerta para a importância de combater a desinformação relacionada às vacinas e reforça que não existem evidências científicas que sustentem as principais fake news disseminadas sobre a vacinação contra o HPV.
Na avaliação dos especialistas, ampliar a cobertura vacinal representa uma das estratégias mais efetivas para reduzir a incidência futura de cânceres relacionados ao HPV. Além de proteger individualmente crianças, adolescentes e grupos de maior risco, a vacinação contribui para diminuir a circulação do vírus na população e pode permitir que futuras gerações convivam com uma frequência muito menor desses tumores, especialmente do câncer de orofaringe.
O papo completo está disponível em episódio do Conexão Cabeça e Pescoço, o podcast, em formato de pílulas, do GBCP.
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