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Radioterapia em cabeça e pescoço: o que esperar e como manejar os efeitos colaterais

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    gbcpcomunicacao
  • há 12 horas
  • 6 min de leitura

Confira na entrevista a seguir a conversa sobre Radioterapia em cabeça e pescoço que tivemos com o Dr. Erick Rauber, radio-oncologista e diretor de ensino e pesquisa da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT)


Dr. Erick Rauber

Qual é o papel da radioterapia no tratamento dos tumores de cabeça e pescoço?

A radioterapia é extremamente importante na maioria dos tumores dessa região. Esse papel varia conforme a localização do tumor. Por exemplo, em câncer da cavidade oral, como os de língua, lábio, gengiva e palato, o principal tratamento costuma ser cirúrgico, e a radioterapia entra depois desse procedimento (tratamento adjuvante), com objetivo de eliminar eventuais células residuais, reduzindo o risco de recidiva. O mesmo acontece com o câncer da glândula parótida (produz a saliva).

 

E nas outras regiões?

O cenário muda. Nos casos de câncer de nasofaringe e orofaringe, especialmente quando associadas ao HPV, a radioterapia é o tratamento principal. São tumores muito sensíveis à radiação e ao mesmo tempo com acesso difícil para uma cirurgia que traria mutilação ao paciente. Quando o tumor é pequeno, a radioterapia isolada já é suficiente para curar o paciente.

 

E a quimioterapia? Ela entra nesse cenário?

A quimioterapia pode ser associada à radioterapia para potencializar o efeito da radiação. Quando o paciente faz as duas juntas, quem está tratando, quem está curando, é a radioterapia. Se por algum motivo o paciente não consegue tolerar as duas ao mesmo tempo, a orientação é que ele faça ao menos a radioterapia.

 

Quais são os principais efeitos colaterais da radioterapia nos pacientes com câncer de cabeça e pescoço?

Os efeitos são bastante específicos da região irradiada. O primeiro que costuma chamar atenção é a perda do paladar. O paciente começa achando que a comida está sem sal, sem tempero, vai progressivamente perdendo a capacidade de diferenciar sabores, até que tudo passa a ter o mesmo gosto de nada. É um sintoma que incomoda muito e que demora para melhorar: mesmo após o término do tratamento, pode levar cerca de seis meses para que o paladar comece a se recuperar, e há pacientes que nunca retornam ao paladar normal.

Junto com a perda do paladar, aparece a boca seca, chamada de xerostomia. A saliva muda de consistência, fica mais espessa, perde a capacidade de formar aquela película fina que normalmente reveste a mucosa. O paciente descreve uma sensação contraditória: sente que tem muita saliva acumulada, mas ao mesmo tempo a boca está ressecada.

 

Quais as consequências da xerostomia?

 Esse ressecamento tem uma consequência importante a longo prazo. Precisamos lembrar que a saliva é a principal responsável por carregar flúor até os dentes. Sua redução aumenta o risco de cáries de radiação. Por sinal, o desenvolvimento desse tipo de cárie pode não acontecer de imediato. O paciente pode terminar o tratamento hoje e, um ou dois anos depois, desenvolver cáries em decorrência da radioterapia.

 

Mais algum efeito colateral importante?

Sim, a mucosite, que são feridas na boca e na garganta, semelhantes a aftas, mas em maior quantidade e intensidade. Quem já teve uma afta na língua sabe o quanto dói. Quando há múltiplas lesões, comer e engolir tornam-se atos dolorosos. A pele do pescoço também pode ficar avermelhada, ressecada e descamando, como se o paciente tivesse tomado sol excessivo. Os pelos da barba, na região irradiada, costumam cair durante o tratamento.

 

Esses efeitos interferem na continuidade do tratamento?

Diretamente. A radioterapia em cabeça e pescoço tem duração de seis a sete semanas, e os efeitos vão se acumulando ao longo desse período. Se o paciente chega a um ponto de dor intensa ou desconforto muito severo, pode ser necessário interromper o tratamento por alguns dias para que ele se recupere. E isso tem impacto real nos resultados porque cada semana de interrupção reduz em aproximadamente 10% a chance de cura. Por isso, o controle dos sintomas não é apenas uma questão de conforto, mas de eficácia do tratamento.

 

O que se pode fazer para prevenir ou minimizar esses efeitos?

 Com relação às feridas na boca, o paciente deve evitar alimentos ácidos, como frutas cítricas, abacaxi e maracujá, bem como alimentos apimentados e bebidas quentes. Café e chás devem ser consumidos frios ou em temperatura ambiente. Quanto à pele, é fundamental evitar exposição solar na região irradiada, usar sabonete neutro infantil para a higiene local e não fazer a barba com gilete, já que a pele fica muito frágil. O ideal é aparar com máquina ou tesoura.

 

Nos últimos anos, houve algum tipo de evolução da radioterapia no sentido de amenizar efeitos colaterais?

Sim. Do ponto de vista tecnológico, os avanços dos últimos anos contribuíram muito para a redução dos efeitos colaterais. A radioterapia moderna é planejada com base em tomografia e utiliza técnicas de modulação de intensidade, como a IMRT, que permitem concentrar a radiação com muito mais precisão no tumor, poupando tecidos saudáveis ao redor. Estudos comprovam que isso reduziu significativamente a xerostomia, a dificuldade para engolir e outros sintomas.

 

A atuação nos cuidados do paciente com câncer de cabeça e pescoço é multidisciplinar. Nesse contexto quais são os principais profissionais parceiros da radioterapia?

No time multidisciplinar, considero que o dentista tem um papel central, que começa antes mesmo do início da radioterapia. O ideal é que o paciente passe por uma avaliação com um dentista especializado, de preferência um estomatologista, antes de iniciar o tratamento. Problemas que em outro contexto poderiam esperar, como dentes que precisam de tratamento de canal, raízes residuais ou extrações pendentes, devem ser resolvidos antes da radioterapia. Isso porque, após a irradiação, a cicatrização nessa região fica comprometida e qualquer procedimento dentário se torna mais arriscado.

Durante e após o tratamento, o estomatologista faz aplicações de laser para prevenir e tratar as aftas, orienta o uso de flúor para proteger os dentes da cárie de radiação, recomenda produtos para lubrificação da boca e estimulação da produção de saliva, além de orientar sobre o uso de pastas de dente neutras, já que as pastas com menta podem irritar a mucosa sensível.

 

Além do dentista, que outros profissionais integram o cuidado desse paciente?

Outros profissionais da equipe multidisciplinar também são essenciais no manejo desses pacientes. O nutricionista tem papel importante, porque o conjunto de sintomas, perda de paladar, boca seca e dor para mastigar, faz com que comer deixe de ser um prazer e se torne um sacrifício. O paciente vai reduzindo a ingestão de alimentos, perde peso e, sem os cuidados adequados, pode chegar a um nível de desnutrição que inviabilize a continuidade do tratamento. O nutricionista orienta sobre a escolha de alimentos mais calóricos, o uso de suplementos e estratégias para manter o aporte nutricional mesmo diante das dificuldades.

O fonoaudiólogo atua principalmente nos casos em que o paciente precisou usar sonda nasal por um período prolongado. Quando a deglutição fica suspensa por semanas ou meses, a musculatura envolvida atrofia, e o fonoaudiólogo trabalha na reabilitação dessa função. Mesmo sem uso de sonda, a radioterapia pode deixar sequelas na musculatura da deglutição, e o acompanhamento fonoaudiológico ajuda a minimizar essas limitações.

A enfermagem também desempenha papel importante no acompanhamento cotidiano do paciente durante o tratamento, com orientações sobre cuidados com a pele e identificação precoce de complicações. A fisioterapia pode ser necessária quando há rigidez cervical, especialmente nos casos em que o paciente foi submetido a cirurgia.

 

O que é importante que médicos não especialistas saibam sobre esses pacientes?

Considero uma das informações mais relevantes a de que o paciente que fez radioterapia em cabeça e pescoço não deve ter essa região manipulada cirurgicamente sem que haja a avaliação prévia do radio-oncologista. E isso vale para qualquer motivo e tipo de cirurgia. Da mesma forma, procedimentos estéticos na área irradiada são contraindicados. O risco não compensa em nenhuma situação.

Em relação aos cuidados dentários, o paciente pode e deve continuar fazendo acompanhamento, mas sempre com um profissional especializado, ou ao menos após uma conversa com o médico que conduziu o tratamento radioterápico.

Por fim, cada caso é único. O paciente não deve tomar decisões com base no que aconteceu com outros pacientes ou em informações obtidas na internet. A avaliação deve sempre ser individualizada.

 

Há algum receio comum que os pacientes trazem sobre a radioterapia?

Um deles é o medo de que a radiação cause um segundo câncer. É uma preocupação legítima, e a resposta honesta é que existe essa possibilidade, chamada de segundo primário radioinduzido. Mas a chance é muito baixa, inferior a 1%, e, quando ocorre, costuma surgir de dez a quinze anos após o tratamento. Diante de um câncer que precisa ser tratado agora, não faz sentido deixar de fazer a radioterapia por conta de um risco tão distante e improvável.

Outro receio frequente é o de que o paciente irradiado possa transmitir radiação para outras pessoas ao seu redor. Isso não acontece. A radiação utilizada na radioterapia atravessa o corpo durante a sessão e não permanece no paciente. Após o procedimento, não há nenhum risco para familiares ou pessoas próximas.

 

 


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